Humberto Laudares

Economia & Política. Às vezes, outras coisas também

Month: janeiro, 2009

Por UM país

A mensagem passada na tarde de hoje no Lincoln Memorial, em Washington, DC, foi clara e consistente com o discurso e prática de Obama: “somos apenas um”. Em seu famoso discurso em 2004, já falava que “não há estados vermelhos ou azuis, mas sim Estados Unidos da América”. Há aproximadamente 2 anos, iniciou sua campanha presidencial com o mesmo tom. Hoje, tal mensagem foi passada por um elenco de celebridades que não cobrou cachê algum (U2, Beyoncé, Garth Brooks, Tom Hanks, Tiger Woods, dentre vários outros), Biden e Obama. 


Após o período de transição, Obama expressou hoje para milhares de pessoas a dificuldade desses tempos: “nosso país está em guerra e em crise econômica”. Para vencer tais problemas, nada mais importante que uma nação unida. A tarefa é difícil, as expectativas são altíssimas. 

Creio que o grau de convergência atingida por Obama até agora tem sido impressionante. Praticamente não há analistas políticos que discordem. Na amostra – viesada naturalmente – que vi hoje nas ruas de Washington, não pude deixar de notar que diversidade está por todos os lados. Brancos e negros, hetero e homossexuais, latinos, asiáticos, turistas, pessoas vinda do Texas ou do Alasca, idosos, jovens e crianças. Todos gritando em nome de um país: “sim, nós podemos”. 

Obama

São nesses momentos que política se torna uma coisa bonita de se ver e emocionante de participar. Claro, que esses são os dias de celebração. Mas são o trabalho árduo do dia-a-dia, das negociações entre poderes, a palavra crítica da mídia, que fazem gritos de guerra virarem realidade. E para isso, precisamos ainda esperar para ver. Mas enquanto isso, parece que as pessoas estão preparadas para agir. 

—x—

Qual é a sensação de um brasileiro assistindo a tal espetáculo da democracia? Não teria outra resposta a não ser: perceber o quanto temos a avançar. Isso não significa que caminhamos na mesma direção, que devemos copiar modelos, e que a democracia americana é perfeita (o que está longe disso); mas significa que temos o potencial de melhorar muito nossa imatura democracia e nosso país a ponto de cada cidadão possa se orgulhar de tais conquistas e trabalhar conscientemente para isso. O desenvolvimento de um país está, em grande medida, nas pessoas que o formam e como elas se integram para promover o bem comum. 

Além disso, ainda falta virarmos “um” também. Nosso desafio é bem maior do que o norte-americano, sobretudo devido à nossa vexaminosa desigualde social e falta de oportunidades para os mais pobres. 

Ainda temos um longo caminho.

Pague seus impostos!

 Timothy Geithner, o Secretário de Tesouro escolhido por Obama, está sendo acusado não ter pagado impostos de previdência social e seguro saúde (como se fosse um INSS) durante os anos que trabalhava no FMI. Além disso, alega-se que empregou uma funcionária com permanência ilegal no país. Agora, corre o risco de não ser
confirmado. 
 

É por isso que sempre digo para alguns amigos: se algum dia planejar em trabalhar em governo em algum momento da vida, nunca pague incorretamente seus impostos! Henrique Meirelles, atual Presidente do Banco Central, e Luiz Augusto Candiota, ex-diretor do mesmo, tiveram muita dor-de-cabeça por causa de suspeita de omissão fiscal e evasão de divisas. 

 Naturalmente, esse tipo de problema parece “leve” em relação ao que ouvimos no noticiário sobre nossa vida política. Entretanto, prefiro pensar que todos agem com o pressuposto da ética. 

PS: sonegação de impostos é, em última análise, tirar dinheiro público de projetos que são destinados à
melhoria de infra-estrutura, ao combate a pobreza, por exemplo.
Portanto, é, indiretamente, corrupção. 

Think-tanks: certamente falta no Brasil

A revista The Economist acabou de mapear a quantidade de think-tanks que cada país ao redor do mundo sedia. A reportagem foi motivada pela coordenação da transição de Obama ser conduzida por John Pedesta, presidente do Center for American Progress, onde tive a oportunidade de assistir ao último debate entre os candidatos com pizza e cerveja à vontade.

O Brasil possui entre 11-100 think-tanks, enquanto Washington, DC, abriga cerca de 350.

ThinkTanks around the worldgif

Fonte: The Economist (13/01/09)

Creio que o importante aqui não é estritamente a quantidade, mas a efetividade dessas instituições no país. Por “efetividade”, entende-se aqui a possibilidade de políticas públicas estudadas e sugeridas por think-tanks sejam implementadas, monitoradas e avaliadas.

Não precisa ser bem informado para saber que qualquer governante no Brasil assume um mandato sem saber o que fará. Pode ser que o candidato tenha uma estratégia, mas dificilmente ela será conectada com políticas públicas específicas. Os planos de governo são formados como uma colcha-de-retalhos a partir da opinião de diversos especialistas ligados ao partido ou ao candidato. Durante a transição, inicia-se a varredura da casa, sendo que se
gasta quase 6 meses de governo (1/8 do tempo de mandato), no mínimo, para se saber o que fará.

É justamente aí que os think-tanks exercem um papel importante: pensar e elaborar políticas públicas com certa periodicidade para grupos políticos ou/e econômicos. Tais instituições não têm foco acadêmico, têm foco prático e executivo. Geralmente tais organizações são compostas por acadêmicos e pessoas com experiência em política pública, e são financiadas por organizações ou indivíduos interessados em seu produto final.

O setor de think-tanks tem espaço para crescer no Brasil e se institucionalizar como legítimo celeiro de políticas públicas para os partidos políticos. O estado do Rio de Janeiro, após tantos anos de governos sofríveis, parece que desenvolveu bons think-thanks como o IETS e o Instituto Casa das Garças.

Mesmo assim, há muito trabalho pela frente… 

Equação que Mantega não entende

No setor automobilístico: desoneração do IPI + aumento de créditos para capital de giro via BNDES e Nossa Caixa + aumento de crédito para consumo de carros = início de demissão de funcionários por parte das montadoras (hoje, foram 744 da GM). Surpresa?

Mantega sonojpg

Fonte: O Globo (3/1/08)

Benfícios da intelectualidade… no PT paulista

Tive aula com Prof. Fernando Haddad. Era conhecido na FFLCH-USP como "Vaidoso Haddad" – até porque não se vestia como bicho-grilo e falava de forma pomposa. Foi um bom professor. Naquela época era adjunto do João Sayad  na Secretaria de Finanças do município de São Paulo, quando Marta Suplicy era prefeita.

Haddad tornou-se adjunto de Tarso Genro no Ministério de Educação, o qual assumiu posteriormente. Como Ministro, Haddad virou uma sensação em Brasília e no PT devido a uma simples razão: soube planejar e implementar um projeto com começo, meio e fim. 

O Estadão de hoje traz Haddad como um dos possíveis nomes do PT para o governo de São Paulo em 2010. Certamente, seria um grande avanço para o PT paulista.  Não é comum tal partido aliar política com competência técnica. Os danos causados por essa incompatibilidade, os paulistanos conhecem bem…

Idéias…

Angela Merkel, Presidente da Alemanha, advoga a criação de um Conselho Econômico na ONU, com status do Conselho de Segurança. Sendo que já existe o FMI e o Banco Mundial com o objetivo de manter a estabilidade econômica financeira global e promover desenvolvimento econômico mundial, parece estranha a proposição de Merkel. Arriscaria a dizer que a possível subordinção de um órgão deste tipo à ONU não teria nada de "econômico", mas sim de político. Isso não é novidade. 

Discurso proferido por Obama hoje sobre a crise

Vale a pena dar uma olhada. 

Na linguagem de Larry Summers (28/12/08):

Brasil, Lulândia e o país em que não se lê jornais

A crise financeira chegou ao Brasil há algum
tempo, sendo confirmada pela bancarrota do banco de investimentos Lehman
Brothers. Mesmo assim, alguns indícios na economia mundial anteriores a tal falência
já deveriam exigir cautela da equipe econômica lulista. A própria crise hipotecária
nos países desenvolvidos, iniciada no meio de 2007, já era motivo suficiente
para uma inevitável contração da atividade comercial e financeira entre países
no médio prazo.

O discurso lulista era de que o
Brasil atingiu um patamar nunca antes visto na história: ficou imune a crises
internacionais, mas continuaria recebendo uma vultosa quantia de investimentos estrangeiros
de curto e longo prazo. A famosa “marola” nunca passou de uma contradição em si
mesma.

Agora, o Presidente declara, em
entrevista concedida à revista Piauí, que não lê jornais ou assiste à noticiários. Embora simbólicas, as
sistemáticas declarações irrealistas do Presidente e de seus Ministros da Casa
Civil e Fazenda me atormentam. Parece que estão gerindo um país diferente do
Brasil. Talvez há um Brasil paralelo, que é a Lulândia, composto por meia dúzia
de crentes do mundo rosa-chá discursado por Lula. Creio que a “meia dúzia”
ainda acredita mais nisso que o próprio.
 

É preciso admitir, no entanto, que
Lula – somente ele – se faz entendido pela maioria da população. Não é à toa
que tem cerca de 80% de aprovação. É também importante destacar que o povo, que
majoritariamente não lê jornais, mas assiste a tele-jornais ou ouvem rádio, não quer saber de
crise alguma… até serem atingidos.

Porém o mundo rosa-chá só existe em
discursos de palanque. É demolido quando a economia é totalmente afetada, a
taxa de desemprego aumenta, a de criminalidade sobe, e iniciamos novamente a
velha toada que conhecemos bem…
 Na
Lulândia, é melhor não ser realista, não planejar melhor as respostas para a
crise a tempo e com vigor. O povo não precisa se preparar, as empresas – com
ausência de crédito – também não. O Estado resolve, defenderia componentes do
séquito da Lulândia. Como se apenas falar e editar meia dúzias de medidas
provisórias resolvesse o problema.

Sinceramente, espero que 2009 seja como na
Lulândia. Mas receio que o Brasil, até mesmo aquele que aparece nos jornais
diários, seja esquecido, não pelos discursos inflamados, mas pelas políticas
públicas que deveriam garantir uma superação mais rápida e sustentável da crise
que enfrentaremos este ano.
  

Crises financeiras, conseqüências e ciência

Passei o final de ano entre Chicago e Flórida. O clima
de apreensão é comum em ambas as cidades, devido à crise econômica. No litoral
da Flórida, a situação é um pouco pior, pois a economia é bastante dependente
do turismo e do mercado imobiliário, que despencaram no último ano. Uma
pergunta semelhante que todos se fazem, neste momento, é “o que esperar
 pela frente?”.

É possível identificar riscos e oportunidades à frente
compreendendo melhor conseqüências de crises ocorridas em diferentes países. A
equipe de Obama sabe disso, a de Lula – com exceção do Banco Central – tenho
minhas dúvidas.

Os economistas Carmen Reinhart, da Universidade de
Maryland, e Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, apresentaram no início
de janeiro um artigo que cobre de maneira bastante abrangente as conseqüências de
crises financeiras em diversos países. As principais conclusões do artigo “The
Aftermath of Financial Crises”, que certamente comporá um dos capítulos do
livro que estão escrevendo sobre crises financeiras, são:

·        
Colapso do preço de ativos (Mercado imobiliário com
uma queda média de 35% em 6 anos; preço de ações apresentado queda de 55% ao
longo de 3 anos e meio);

·        
Crise bancária está associada com um conseqüente
declínio de produto (PIB cai cerca de 9%) e emprego (aumento de 7% na taxa de
desemprego no pior período da crise).

·        
O valor real do débito governamental tende a explodir,
aumentando em média 86%. A maior causa dos débitos não é devido à aumento de
despesas – embora ocorra -, mas à redução de receita, devido à diminuição da
atividade econômica e, portanto, arrecadação de impostos.

No caso dos Estados Unidos, Obama já declarou que está
ciente do cenário à frente. As promessas de campanha, especialmente programas
de previdência social e saúde pública, terão que ser estudadas com muito
cuidado – e pouco dinheiro. A economia também já apresenta indicadores suficientes
robustos para isso.
 

O Congresso americano já está prevendo um déficit
orçamentário de US$ 1,2 trilhão para o ano fiscal de 2009. O departamento
encarregado da elaboração do orçamento prevê a redução da taxa de desemprego de
6.7% (novembro de 2008) para 9% (final de 2009). Estima-se uma queda da
atividade econômica de 2.2% e da arrecadação de impostos de 6.6% (us% 166 bilhões).
 Mesmo assim, o pacote de estímulo
econômico de US$ 800 bilhões deverá ser implementado ao longo de 2009 e 2010. O custo seria maior se não o fosse. O
grande esforço agora – consenso entre Democratas e Republicados – é gastar bem
tais recursos.

PS: Link do artigo: http://www.economics.harvard.edu/faculty/rogoff/files/Aftermath.pdf


Ano Novo

Resolvi, de uma hora para outra, entrar para o mundo dos blogs. Não tenho dúvidas esta é uma forma de comunicação rápida e eficiente. Sigo, há algum tempo, alguns blogs sobre temas que tenho interesse: política e economia. Portanto, aqui, o assunto não será diferente… 


Vamos com tudo!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 183 other followers