Crises, poder e desenvolvimento
junho 30th, 2009 § Deixe um comentário
Passei minha infancia e adolescencia em crise. Na verdade, toda minha geracao que cresceu no Brasil. Crises financeiras, bancarias e politicas. Quando sai do Brasil para estudar, estudei mais crises. Porem os holofotes voltaram-se para o hemisferio norte, o mundo rico. Como estava em Nova Iorque, no meio do furacao fiquei.
A discussao sobre o impacto da crise economica na America Latina nao foi somente tema de minha dissertacao de mestrado, de debate do dia-a-dia, mas tambem do meu trabalho subsequente. Como evitar com que instituicoes publicas se preprarem para gerenciar bens publicos, administrar crises e promover desenvolvimento economico? Essa e a pergunta que me faco todos os dias para analisar diferentes paises e diferentes contextos.
Jose Roberto Afonso nos recomendou a apresentacao que Jose Serra fez em Washington DC este mes. Gostei. Perpassa de maneira clara por pontos importantes da resposta de minha pergunta diaria. Do ponto de vista tecnico, seus argumentos sao lucidos e alinhados, em geral, com boas discussoes que presenciei, sobretudo em conversas e debates com o Prof. Guillermo Calvo, Universidade de Columbia, Carmem Reinhart, Universidade de Maryland, Ricardo Hausmann, Universidade de Harvard, e Jose Gregorio, Presidente do Banco Central do Chile.
Mas o debate que Serra participou ia alem da esfera economica, falava-se sobre a nova distribuicao de poder entre paises. Certamente, o cenario ja mudou e o G-20 e uma traducao dessa realidade e sentimento. O Brasil saiu bem posicionado em termos economicos e politicos. O carisma do Presidente Lula ajudou. Seria o ponto de partida suficiente?
Nao entendo que haja uma estrategia consistente e arrojada para atacar esses novos desafios. Esta semana o governador de Sao Paulo ja disse que o governo federal nao possui uma estrategia de desenvolvimento. Nao mesmo. O que os governos estaduais – sobretudo Sao Paulo e Minas Gerais – estao fazendo de diferente? Sera que a populacao saberia diferenciar?
A expectativa que o mundo tem sobre o Brasil e maior do que podemos depreender das palavras da maior parte de nossos lideres politicos. O senso de urgencia, por exemplo, e praticamente nulo. O que deviamos fazer – como brasileiros – para atender as nossas expectativas como um dos paises lideres na nova ordem mundial? Que valores a sociedade devera incorporar para lidar com este desafio? Afinal, que tipo de lider queremos para nos guiar em um processo de modernizacao que se faz cada vez mais necessario?
O Brasil so se consolidara como uma dos lideres no cenario global se souber caminhar em aguas bravas de maneira estrategica. Crescimento economico pode ser que governos peguem de carona, mas desenvolvimento economico nao. A concorrencia ja esta dada, e hora de fazermos o dever de casa. So assim, ha a possibilidade de minha geracao – e das outras que seguem - ver um futuro de oportunidades – e nao de crises.
PS: Desculpem-me a falta de acentos.
Hotel Ruanda
junho 15th, 2009 § Deixe um comentário
Mesmo após alguns anos, ainda recordo-me das cenas do filme “Hotel Ruanda” (2004), dirigido por Terry George, sobre o genocídio ocorrido em 1994 nesse país africano. Sábado estou embarcando para lá por motivos profissionais. Ao chegar, irei diretamente ao local em que filme se passou, o Hotel des Mille Collines.
Para expressar o quão dramática foi a situação de guerra civil em Ruanda, entre 1990-1995, a população do país reduziu-se em 25%. Parte dessas pessoas emigraram, parte foi assassinada (estima-se que 11% do total da população). As mulheres tutsis foram as mais afetadas – quando não mortas, foram, em sua maioria, estupradas.

As diferenças étinicas entre tutsis e hutus tornaram-se ainda mais problemáticas com o agravamento da situação econômica do país devido à queda de cerca de 50% do preço internacional do café, produto de maior peso nas exportações do país. Recursos externos, provindos de organizações multilaterais, entraram no país com o objetivo de melhorar a situação econômica e social. Há quem diga que parte desses recursos foi parcialmente destinado ao financiamento da guerra interna.
O resultado da guerra é que, mesmo com um grande ingresso de recursos externos, o país ficou 57% mais pobre entre 1898 e 1994.

Estudos recentes, como o de Sala-i-Martin, mostram que a pobreza melhorou no mundo todo nas últimas décadas. Menos na África. Há diferentes razões para isso, mas certamente guerra gerada por rivalidades tribais é uma delas. Entender a dinânica social dessas sociedades é fundamental para compreender os desafios de seu desenvolvimento.
Volto com notícias de Kigali.
Funes
junho 3rd, 2009 § Deixe um comentário
Há praticamente um mês estava programado do Presidente do Paraguai, Lugo, vir fazer uma apresentação aqui no Banco Mundial em um seminário sobre economia latino-americana. Com seus problemas de paternidade indevida, naquele momento, cancelou. Foi substituído pelo então recém-eleito Presidente de El Salvador.
Funes chegou quieto, algumas pessoas começaram a se levantar. Até que o Presidente do Banco Central Chileno, José Gregório, que estava fazendo uma apresentação no momento, reagiu brincando: “não sei quem chegou, mas parece ser importante”.
Estava certo. É importante para a América Latina que tenhamos políticos democráticos que foquem na área social, mas que não estejam com a cabeça na década de 60.
Funes fez um discurso direto e lúcido. Para alguns, nada surpreendente. Para outros, especialmente os que conhecem a história recente e a economia política do país, o novo cenário político pareceu animador. A transição foi feita de maneira bem conciliadora. O novo presidente convidou a oposição – derrotada e há muitos anos no poder – para participar das discussões sobre os novos rumos do país. Uma atitude a la Obama.
Em sua posse, há dois dias, fez questão de citar o novo presidente norte-americano, representado pela Secretária de Estado Hillary Clinton. Alguns jornais brasileiros reclamaram Lula não foi citado no discurso de posse – já que o Presidente brasileiro teve bastante influência na campanha, indicou o marqueteiro João Santana e mantém relações próximas com o novo Presidente. Fez bem em não citá-lo, pois causaria ciúmes na região. Porém, no discurso que fez há poucas semanas, que tive a oportunidade de presenciar, o nome de Lula foi citado como símbolo de uma transformação “responsável” na América Latina.
Que Época?!
junho 1st, 2009 § 2 Comentários
Em sua última edição, a Revista Época lançou uma matéria intitulada “A Disneylândia de Aécio Neves“, referindo-se às obras do novo Cidade Administrativa do governo mineiro. O título dita o tom da reportagem, como também o pobreza de seus argumentos.
A Cidade Administrativa é um projeto da primeira gestão do governador mineiro, quando ainda queria viabilizá-lo por meio de uma parceria público-privada (PPP). Portanto, consta no planejamento estadual há algum tempo. A sociedade mineira já discutiu e aprovou o projeto. Não caiu de pára-quedas. Além disso, para viabilizar um investimento desse montante, foi preciso primeiro arrumar as contas do estado e promover a melhoria gerencial (Choque de Gestão).
Agora, que o projeto está em execução, com orçamento disponível e dentro do cronograma, temos que escutar argumentos simplistas como esse. O exemplo da execução avançada do projeto é um bom sinal, ao contrário do que acontece com o PAC – com seus vexaminosos 3% de execução. A má execução de projetos públicos tem dois nomes: custo de oportunidade (para a sociedade) e incapacidade executiva (do governo).
Se o jornalista queria fazer uma matéria boa, perdeu a oportunidade. Talvez poderia dizer o quanto este projeto está relacionado ao “Choque de Gestão” – já que é uma obra-síntese dele. Ou então, poderia analisar por que a obra custará R$1,2 bilhão ao invés dos R$500 milhões iniciais (de quando é a previsão?).
Se quer apreciar a arquitetura do projeto mineiro, que aprecie. Se quer investigar e criticá-lo, que o faça também. É um bem público. Mas usar argumentos infantis em uma revista de circulação nacional, parece mesmo pegadinha da Disneylândia…