Humberto Laudares

Economia & Política. Às vezes, outras coisas também

Obama de Deus na Dilmalândia

Quem não está aguardando a visita de Obama ao Brasil? Pela primeira vez o primeiro presidente negro dos Estados Unidos faz uma visita à primeira presidenta (sim, adotei presidenta pois é realmente mais fácil para expressar “positivamente” a diferença de gênero) do Brasil. Ignorou passar por São Paulo – para o desgosto do establishment econômico do país. Ao invés de palácios de governo e hotéis chiques, Obama fará seu discurso na Cinelândia e visitará Cidade de Deus (Rio). É um ato simbólico com que os empresários e muitos políticos brasileiros podem aprender um pouco.

Deste encontro, faço coro a Sabatini, e gostaria realmente que Obama e Dilma tenham uma agenda de debate sobre a igualdade de educação. Só pela educação ambos presidentes chegaram lá, mesmo que por vias distintas. É positiva a idéia de aumentar intercâmbio do Brasil com outros países latino-americanos por uma questão diplomática, mas é muito mais importante melhorar as condições de acesso à educação de qualidade dos brasileiros – por uma questão de desenvolvimento e de justiça social.

Quais são as melhores organizações de desenvolvimento internacional para se trabalhar?

Se tiver interessado em trabalhar ou contribuir para uma organização de desenvolvimento internacional, vale a pena dar uma olhada no relatório publicado ontem pela agência de desenvolvimento inglesa, DFID.  

I Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia

Gostaria de divulgar o I Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia. É uma bela iniciativa de colocar cara-a-cara pessoas que põem voluntariamente a cara-a-bater na internet.

Infelizmente, não estarei no Brasil para o evento que será realizado dia 25/3 na Sala de Congregação da FEA-USP, em São Paulo. A entrada é gratuita.

Nevasca em pleno sertão?

Minhas férias foram maiores do que o planejado. Nem tudo na vida planejamos, sobretudo as perdas. Aos poucos, voltamos.

Segue abaixo um oportuno artigo de Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico de hoje. Perguntas antigas, para problemas atuais. Em organizações internacionais, trabalhamos com a concepções de desenvolvimento econômico e democracia ainda bastante eurocêntricas. Não por acreditar, mas porque o financiamento e o comando vem dos países que nevam.

Eu prefiro muito mais o sol e o luar do sertão.

Democracia sob o sol a pino

Valor Econômico | Maria Cristina Fernandes

11/02/2011

No papel do artista mambembe Lorde Cigano, da caravana Rolidei, José Wilker monta seu picadeiro no sertão e anuncia que realizaria o sonho de todos os brasileiros. Uma chuva de flocos de algodão cai sobre a maravilhada plateia enquanto Cigano declara: “Agora, como em todo país civilizado, o Brasil também tem neve”.

A cena é de “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues. O filme é de 1979, ano em que o Brasil iniciava o último governo da ditadura com desarranjos que levavam parte dos militares e dos civis a acreditar que o vaticínio de Samuel Huntington, se comprovaria.

Conselheiro do governo Médici, o futuro autor de “O Choque das Civilizações” (1997), Huntington advertiu-o de que o relaxamento de controles provocaria uma explosão de demandas sobre as quais o regime não teria controle.

Venceu a tese da abertura gradual, mas a crise econômica que presidiria o governo João Figueiredo e as tensões que marcaram a transição para o governo Sarney deram, até a bomba do Riocentro, sobrevida aos partidários da linha dura.

A lógica ianque, que descria nas chances da democratização brasileira pela ausência de instituições tão desenvolvidas quanto as dos ricos, também influenciaria a visão tupiniquim de que a saída para fazer nevar passa pela cópia de suas instituições. Essa visão alimentou o debate político ao longo dos últimos 30 anos e, ainda hoje, a cada leva de iniciativas reformistas, volta ao asfalto em botas de couro sob o sol a pino.

Seus proponentes, adeptos do voto em lista, distrital, distritão ou bambalalão são movidos pelo desejo de reduzir a competição na política. Não é à toa que as propostas sempre apareçam depois de eleições. Os sobreviventes temem não ter uma nova oportunidade de sobreviver à arena eleitoral. A plateia adere por inércia e sob a ilusão de que um novo sistema eleitoral funcione com pega-ladrão e faça nevar.

Aos reformistas da hora somem-se os analistas, cada vez mais frequentes desde a crise financeira internacional, que levantam preocupações com a possibilidade de os países emergentes terem um peso maior na ordem mundial.

No Valor de ontem, Dani Rodrik, professor de Economia Política em Harvard, foi buscar em Huntington os fundamentos para seu argumento de que o crescimento econômico não apenas é insuficiente para a estabilidade política como pode multiplicar as demandas e provocar mudanças que chamou de devastadoras.

Em outro artigo no Valor (11/10/2010), Rodrik já demonstrara que seu foco vai além dos manifestantes da praça Tahir. Neste texto exibiu sua descrença na estabilidade de uma ordem global em que Brasil, China, Índia e África do Sul tenham maior preponderância. São países que, segundo argumentou, mostraram, até agora, pouco interesse em contribuir para a construção de regimes globais: “Se o centro de gravidade da economia mundial mudar substancialmente para o lado dos países em desenvolvimento, o processo não será suave – e possivelmente nem mesmo benigno”.

Professora da USP e organizadora da conferência internacional que, na próxima semana, sob os auspícios da Associação Internacional de Ciência Política e sua congênere nacional, a ABCP, debaterá em São Paulo as mudanças nas relações entre os hemisférios Norte e Sul, Marta Arretche diz que essas análises movem-se como o sarrafo do salto em altura. Imprensa livre, eleições limpas e Judiciário independente já não bastam. Agora os movimentos sociais também têm que estar sob controle.

“Países em desenvolvimento foram condenados pela teoria à incapacidade crônica de incorporar social e politicamente seus cidadãos e agora estão desafiando esse postulado”, diz Marta, citando Adam Przeworski, pioneiro na desconstrução da teoria de que a democracia só sobrevive sob a neve.

Há imperfeições em toda parte, diz, mas ninguém acredita que a democracia americana esteja em risco porque um juiz da Flórida indeferiu um pedido de recontagem de votos que deu vitória a George W. Bush sobre Al Gore. Tampouco há sinais de descontrole num país em que um jovem, insuflado à violência pelo ultrarreacionarismo do Tea Party, atira numa deputada do Partido Democrata que votou pela reforma da saúde. E, finalmente, não se manifestam dúvidas de que a governança mundial está segura sob a liderança de um país em que o medo do perigoso comunista Barack Obama inflacionou a venda de armas.

A xenofobia tem inspirado política de governos e a eleição de parlamentares em toda a Europa e, nem por isso, alardeia-se déficit democrático no continente. É o superávit de neve que parece equilibrar essa balança institucional.

Um dos convidados da conferência, Peter A. Gourevitch, da Universidade da Califórnia, não vê modelos a serem transplantados aos países em desenvolvimento. Otimista em relação ao esforço regulatório das finanças mundiais, Gourevitch diz que a economia americana recupera-se numa esfera marcada pela consolidação do multilateralismo.

Em artigo publicado no ano passado (“The Politics of Stock Market Development”, Review of International Political Economy) Gourevitch analisou o desempenho das bolsas de valores de 82 países entre 1975 e 2004 e constatou que aqueles governados por coalizões de centro-esquerda promoveram políticas de transparência e proteção aos acionistas mais atraentes ao investidor do que aqueles presididos por alianças orientadas à direita. O artigo cita o Brasil governado pelo PT.

A numeralha de Gourevitch engrossa a percepção de que se a democracia sobreviveu num país sem neve ao longo dos últimos 26 anos é porque a maioria levou vantagem.

Bacha, para além das baixarias do motel mais próximo

João Villaverde, cujo ótimo blog está no blogroll à direta, entrevistou Edmar Bacha. Bacha o meu economista brasileiro que tenha maior afinidade intelectual. Não porque é meu conterrâneo, mas pelo que produziu, fez e pensa. Em poucas palavras, bem coloca desafios que o Brasil poderia discutir com mais seriedade – as invés de perder tempo com atos de auto-elogio em fim de temporada (Lula) ou noitadas em motéis pagos com recursos públicos.

Como o conteúdo do Valor Econômico é restrito, segue o conteúdo completo abaixo.

“A economia tem limites e o país está no limite”, diz Bacha

João Villaverde | Do Rio

22/12/2010

Aumentamos as importações não porque a indústria não tem capacidade instalada, mas porque a mão de obra está cara” Temos um problema com essa emergência da classe média, que todo mundo está achando uma maravilha”

Em 1974, quando Edmar Bacha criou o termo “Belíndia” para designar o modelo econômico brasileiro – que unia a riqueza da Bélgica, um país pequeno, com a pobreza da Índia, um país continental – o Produto Interno Bruto (PIB) havia crescido 8,1%, mas a inflação dobrara, passando de 15,5% para 34,5% de 1973 a 1974. Era o fim do “milagre” produzido pela ditadura militar a partir de 1967, e início de um período que mesclaria crescimento acelerado com endividamento externo e inflação crescente. Vinte anos mais tarde, Bacha, doutor em economia por Yale (EUA) em 1968, integrava o grupo de economistas formado por Persio Arida, Gustavo Franco e André Lara Resende na formulação e implementação do Plano Real, que trouxe a inflação dos 2.477,1% registrados em 1993 para menos de dois dígitos a partir de 1996. Hoje, com a economia caminhando para repetir a alta de 8% registrada pelo PIB nos anos 1970, Bacha avalia que o Brasil está no limite.

“O Brasil está mais complexo que nos anos 1970 e 90. Superamos os grandes problemas da ditadura, da hiperinflação e da perspectiva para um governo de esquerda. Não há mais um grande problema, mas uma série de questões para serem atacadas”, avalia Bacha, para quem o país conta “com uma produtividade ainda fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do PIB e não entrega de volta no mesmo nível, o sistema político brasileiro é um horror, o sistema tributário é uma vergonha, e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050″.

Na entrevista que deu no prédio projetado por Oscar Niemeyer, com jardins de Roberto Burle Marx ao fundo, onde funciona o Instituto de Estudos de Pesquisa Econômica Casa das Garças, Bacha, diretor do centro e até a semana que vem consultor sênior do Itaú BBA, fez um balanço dos oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, e avaliou os principais desafios de Dilma Rousseff. E foi contundente em dizer que não vê risco de desindustrialização no país, mesmo com os indicadores de produção industrial andando de lado desde abril. “Como podemos falar em desindustrialização quando estamos com pleno emprego?”, pergunta, se referindo à demanda por mão de obra, que acaba por elevar os salários. A seguir os principais trechos de sua entrevista:

Valor: Com o atual ritmo de crescimento do PIB, câmbio valorizado, inflação acima da meta do BC e financiamento externo elevado, como é possível se alterar esse modelo sem que se bata em um gargalo?

Edmar Bacha: A economia tem limites, apesar do Antônio Delfim Netto achar que não existe produto potencial. Claramente estamos trabalhando nos limites. Como sair disso sem aumentar a poupança interna? Com produtividade. O que temos a oferecer para aumentar a produtividade? Os avanços tecnológicos não caem do céu, é preciso ir atrás deles e isso vai na contramão da tese de desindustrialização, afinal estamos importando mais tecnologia, justamente para ampliar a produtividade.

Valor: O sr. então refuta a ideia de que o Brasil está se desindustrializando?

Bacha: Estamos em pleno emprego, que desindustrialização é essa? A verdade é que por estar em pleno emprego e a mão de obra em escassez, e por estarmos nos especializando em serviços, comércio e construção civil, a indústria não consegue concorrer na disputa pelo trabalhador.

Valor: Por isso os indicadores de produção industrial estão tão fracos desde abril?

Bacha: No Brasil, nunca olhamos direito para a questão do emprego, mas sempre para a utilização da capacidade produtiva. Acho que é uma novidade o que está ocorrendo. Nunca tivemos uma taxa de desemprego tão baixa. A indústria se anima porque a demanda está mais alta e tenta contratar mais mão de obra, e aí o preço sobe. O próprio Valorfez uma matéria chamando atenção para os acordos salariais recordes neste ano. Isso representa aumento do custo da mão de obra e consequentemente reduz a rentabilidade da indústria. Então a indústria não tem por quê produzir mais. Não há pressão sobre a capacidade instalada, mas sobre mão de obra. E não é só na indústria, o pessoal de construção civil também. Não tem engenheiro e também não tem pedreiro.

Valor: Essa dificuldade em produzir, então, facilita a entrada de importados?

Bacha: Ao tentar produzir mais o salário sobe, e com isso diminui a rentabilidade, então ela não produz além de certo patamar. Aumentamos as importações não porque a indústria não tem condições de concorrência, mas porque ela está plenamente empregada.

Valor: Onde isso pode chegar?

Bacha: Essa falta de mão de obra pode extravasar para aumento da inflação ou um déficit não financiável nas transações correntes. Esse é que é o problema, não é a desindustrialização.

Valor: Não estamos dependendo muito da demanda chinesa por commodities?

Bacha: A ideia de que os preços estão em alta e podem cair e gerar um problema é exagerada. Se daqui a cinco anos a China parar de consumir, a Índia assume a demanda. Vivemos uma mudança estrutural profunda, semelhante a que ocorreu na passagem do século XIX para o XX, quando o país líder era consumidor de commodities, a Inglaterra, e passou a ser os Estados Unidos, um país produtor de commodities. Passamos, então, cem anos com os preços das commodities no chão, o que deu caminho para a industrialização. Agora está saindo dos EUA e indo para China e Índia, que, como a Inglaterra antigamente, demandam commodities.

Valor: O Brasil, então, continuará sendo o país do futuro?

Bacha: Não temos um terço da humanidade, como têm China e Índia. Mas temos diversos desafios vencidos, o que é ótimo, o que deixa o caminho aberto. Superamos a ideia de que o Brasil só crescia de maneira estável com ditadura, primeiro com a industrialização induzida por Vargas e depois com os militares. Superamos essa fase, podemos ser uma economia que não vai por saltos, mas cresce e com democracia. Depois a ideia de que a única maneira de crescer era com inflação. Eu me lembro do Celso Furtado dizendo que 17% de inflação é mais ou menos igual a zero nos países desenvolvidos. Superamos isso também. A terceira questão é a esquerda no Brasil, e essa é a importância do Lula.

Valor: Como assim?

Bacha: Até dezembro de 2001, quando o PT teve o manifesto de Olinda e ignorou o fim da Guerra Fria, ninguém poderia saber como seria um governo de esquerda. Aí vem o Lula e joga com todos os velhos vícios da política brasileira. Nós passamos por esse teste.

Valor: O que falta, então?

Bacha: Faltava demanda por recursos naturais, mas até isso superamos, com o surgimento da Ásia, com forte demanda pelos produtos que os latino-americanos têm à oferecer. Nossos problemas agora não têm a dramaticidade que tinham quando as questões eram hiperinflação, ditadura, a perspectiva de um governo de esquerda e a falta de demanda por nossas commodities. Isso é passado.

Valor: O Brasil está mais complexo. Mas ainda não superou todos os problemas do passado, como a desigualdade de renda…

Bacha: Concordo. Continuamos com um problema de distribuição de renda, que é coisa que precisa sempre ser priorizada. Mas não é só isso, temos outros problemas, antigos, que não foram resolvidos. Temos uma produtividade ainda fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do produto e não entrega no mesmo nível, o sistema político é um horror, o sistema tributário é uma vergonha e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050. Uma quantidade enorme de problemas que precisam ser atacados, mas nós temos o know-how.

Valor: Este é o momento para discutir essas questões?

Bacha: Nas épocas eleitorais claramente não é. Quando você vê o nível do debate que tivemos em 2010 dá vontade de correr. Especialmente quando o principal debate se deu em torno do aborto. Temos um problema aí com essa emergência da classe média, que todo mundo está achando uma maravilha, mas ela não necessariamente tem uma face bonita, basta ver nos EUA com o Tea Party. Acho que está fora de cogitação pensar que essa classe média pode pensar em ditadura, mas estará ela disposta a discutir a fundo esses diferentes problemas? Em alguns temas já formamos consensos, como na questão dos tributos, que foi levantada depois das eleições, quando falaram sobre o financiamento da saúde.

Valor: O sr. concorda com o retorno da CPMF?

Bacha: É claro que não concordo. Acho absurdo pensar em criar mais um imposto quando o governo está arrecadando barbaridades. É preciso arrumar os gastos, não a arrecadação.

Valor: O caso da Previdência é um exemplo?

Bacha: Exatamente. Gastamos 11% do PIB com Previdência quando o normal seria 5%. Dentro da Previdência, o equivalente a 3,5 pontos percentuais são gastos com pensões, quando o normal seria 1% do PIB. Temos esses privilégios adquiridos que têm uma força enorme e representam uma parcela muito grande dos impostos.

Valor: Mas programas como o Bolsa Família são baratos, não?

Bacha: Sim, o Bolsa Família atinge 12 milhões de famílias e custa apenas 0,4% do PIB. O Loas, que atinge quantidade enorme de idosos, custa só 0,6% do PIB. Então, quando o governo fala em financiar os programas sociais, não pode estar se referindo a esses, que são muito baratos. O que ocorre é uma usurpação dos gastos sociais, dando a todo tipo de gasto o nome de social.

Valor: Dê um exemplo, por favor.

Bacha: Na educação, o grosso dos gastos públicos vai para universidades gratuitas. Não tem a mínima razão para as universidades serem gratuitas no Brasil.

Valor: Nenhuma?

Bacha: Não, nenhuma. Desde que se tenha uma política de bolsas, não precisamos ter universidades gratuitas.

Valor: Então seria possível privatizar as universidades públicas?

Bacha: Eu não gosto dessa palavra “privatizar”, há mecanismos em que os beneficiários dos gastos públicos têm co-participação desde que tenham renda para tal, seja por bolsa, seja por empréstimos escolares. Os argumentos que estão por trás desses privilégios, tanto na Previdência quanto na educação superior, vêm da Constituição, que prevê que o ensino deve ser universal e gratuito. É gratuito, mas não pode ser universal e nem pode ser, e o dia que for o país arrebenta, porque não dá para atender todo mundo de graça. Essa é a dificuldade do PT para comandar o próximo passo.

Valor: E esse passo seria qual?

Bacha: O processo que vêm pela frente está baseado na eficiência do setor público e na equidade nos gastos, porque eles não gostam de falar em privatização.

Valor: O país deixaria então de ser a “Belíndia”?

Bacha: Se continuarmos no ritmo desses últimos dez anos, daqui a 15 anos estaremos perto dos Estados Unidos de hoje. O índice de Gini do Brasil passou de 0,65 para 0,56, mas o padrão americano é de 0,40, e o europeu é de 0,25, então ainda há muito a ser feito. Temos trilhado esse caminho, mas as coisas vão ficar mais difíceis. Os desafios que temos hoje na área social são mais caros e mais complexos. Uma coisa era resolver o problema da vacinação e da mortalidade infantil, algo razoavelmente simples, mas dar SUS para todos é muito mais complicado. Com educação, uma coisa era colocar todo mundo na escola, agora é preciso fazer as crianças aprender alguma coisa.

Valor: E o Estado consegue dar conta de tudo?

Bacha: Claro que não. Boa parte do desafio agora é encontrar formas de maior participação do setor privado nessa área social. E aí tem esse grande entrave do PT. A pior coisa do governo que termina foi ter demonizado a ideia de privatização. Nós não conseguimos resolver o problema dos aeroportos porque qualquer coisa que mexe com privatização é travado. Isso é terrível porque nessa nova fase o setor público não consegue dar conta, seja do ponto de vista administrativo, seja do lado financeiro. Talvez a Dilma nos surpreenda.

Valor: Você acha que ela vai surpreender?

Bacha: Não sei. Até agora o ministério é muito velho, não? Não vejo uma cara de estar preparado para uma nova fase, parece quatro anos do mesmo.

Valor: A inflação deve fechar o ano em torno de 6%, acima da meta de 4,5% do Banco Central. Em 2002, quando a inflação dobrou, o sr. defendeu uma meta mais branda. O que acha hoje?

Bacha: Naquela época tivemos um choque de oferta, não era a economia trabalhando a mil, como hoje. Com choque de oferta se justifica um tratamento mais brando na hora de trazer inflação para a meta. Não é que o BC não tenha de atacar a inflação, mas atacar de forma compatível com o problema. Em 2010 é outra história, é basicamente demanda. Tem um ciclo de alimentos, que ajudou por três meses a inflação e agora está incomodando.

Valor: Isso quer dizer que a maior taxa de juros do mundo vai subir ainda mais?

Bacha: Seria ótimo que o lado fiscal ajudasse, mas não acho que isso vai acontecer. Quem dera que o “neomanteguismo” me surpreenda com um ajuste fiscal forte, mas vai sobrar para o BC. O que é ruim, porque já temos a maior taxa de juros do mundo.

Valor: Mas o PIB deve crescer fortemente nos próximos anos, não? Não só pelo carry-over de 2010, mas também pela perspectiva de pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíada etc.

Bacha: Não acho que o PIB vá crescer tudo isso que está sendo projetado pelo governo e pelo mercado.

Valor: Por quê?

Bacha: Porque não temos poupança para isso.

Valor: Mas podemos continuar ampliando nosso déficit em transações correntes para sustentar o crescimento, não?

Bacha: Podemos, claro, nessa hipótese o PIB crescerá mesmo, e imitaremos a Austrália, que cresce há muitos anos, mesmo com um endividamento externo elevado, de 5% a 7% do PIB. Mas se chegarmos nesse nível o mercado pode achar que somos mais Hungria que Austrália, e a confiança se esvai rapidamente.

Valor: Como tornar o crescimento sustentável, como incentivar poupança?

Bacha: É mais fácil ter um diagnóstico da poupança do setor público que do privado. O setor público já chegou a poupar 7% do PIB, hoje poupa 1,5%. Quando se controla o gasto corrente sobra mais para poupar e investir, não tem muito mistério nisso. A questão do setor privado é mais complexa. Pense na China. O problema deles não é como aumentar a poupança, mas diminuí-la. Sabe como?

Valor: Como?

Bacha: Dê a eles um sistema universal de saúde, educação e previdência. A poupança das famílias, das empresas e do Estado vai embora rapidinho. Precisamos pensar além da poupança, os EUA nunca pouparam muito. Precisamos pensar na inovação, essa foi a razão do sucesso dos americanos.

Valor: O que deve fazer o Estado?

Bacha: Precisa fazer coisas básicas, como ocupar o Morro do Alemão (RJ). Esse é um caso quase patético de como o Estado deve agir. É como quando acabamos com a inflação, havia todo um nundo novo à nossa frente.

Valor: Que balanço o sr. faz do governo Lula?

Bacha: Teve dois grandes méritos. O PT nasceu longe das bases comunistas e populistas, mais ligado à social-democracia, a um sindicalismo mais avançado, às bases da Igreja. O que vai ser quando chegar no poder? O discurso era péssimo, assustador. Mas chegou lá e demonstrou que é possível ter governo de esquerda no Brasil. Outra coisa é o pragmatismo do Lula. Começou a atacar a pobreza com o Fome Zero. Quando viu que o programa era ruim, foi para o Bolsa Família, que deu muito certo.

Valor: E o que o sr. avalia mal?

Bacha: Um dos erros nem foi propriamente do Lula, que foi o caso do mensalão, quando o governo resolveu fazer as reformas do começo de governo, reformas difíceis de fazer e de passar pelo Congresso e resolveram utilizar o método tradicional, mais fácil, de comprar os parlamentares. A partir daí [quando estouraram as denúncias], Lula resolveu desistir de passar reformas. Ter abandonado as reformas foi algo muito ruim. Outro problema foi a demonização da privatização. Como Lula ganhou em 2006 do Alckmin com essa plataforma, percebeu que esse ideário funciona, é eleitoralmente impotente. É uma coisa muito ruim isso, porque o Brasil não vai conseguir fazer a Copa do Mundo do jeito que os aeroportos estão. Quantas PPPs o governo fez? Não sei se a Dilma vai ter a capacidade de fazer as coisas de outra forma.

De língua em língua

O ainda-Presidente Lula fala com a língua-presa a língua-do-povo. Às vezes, tem, porém, a língua desnecessariamente solta. A sua candidata recém eleita nem subiu a rampa do Planalto para o ainda-Presidente indicar que do alto dos seus 87% de aprovação será novamente candidato em 2014. Eu me pergunto: por que? Tem o direito de ser candidato, naturalmente. Mas por que indicar um futuro que faz com que a futura-Presidente já seja vista como uma presidente-do-passado?!

O problema aqui é claro. Expectativa, criada pela língua-presa desnecessariamente solta.

PS: Saio de férias hoje – sem computador. Volto 10 de janeiro. Desejo a todos um feliz 2011.

Autonomia, Dilma?

Compartilho a ótima reportagem de Cristiano Romero (Valor Econômico)  sobre as batalhas silenciosas de Meirelles e da Diretoria do Banco Central para se manterem independentes ao longo do governo Lula. Como será no governo Dilma?

Autonomia ameaçada

Cristiano Romero | De Brasília
17/12/2010

Era dezembro de 2002 quando, numa sala da residência oficial da embaixada do Brasil em Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assegurou ao ex-banqueiro Henrique Meirelles que, em seu governo, o Banco Central teria autonomia para conduzir a política monetária. Às vésperas de tomar posse, Lula vinha tendo dificuldade para encontrar um nome para o BC porque todos desconfiavam dos propósitos do governo petista. Meirelles pediu autonomia e Lula a concedeu.

Tendo renunciado ao mandato de deputado federal para o qual fora eleito meses antes, Meirelles assumiu o cargo em janeiro de 2003 e se tornou o mais longevo presidente da história do Banco Central brasileiro. Em agosto de 2004, deixou de dever obediência ao Ministério da Fazenda depois que o presidente Lula lhe concedeu, por medida provisória, status de ministro. Em oito anos, o BC, sob seu comando, superou duas crises, derrubou a inflação e colocou o Brasil na rota do crescimento sustentável. O caminho, no entanto, foi tortuoso.

Em vários momentos dessa trajetória, a autonomia do BC foi colocada à prova. Prevaleceu em vários setores do governo, ao longo do tempo, a ideia de que um “excesso de conservadorismo” da instituição impediu que a economia brasileira crescesse mais do que cresceu – na era Lula, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou, em média, 4% ao ano, face a 2,47% da era Fernando Henrique Cardoso; em 2010, está crescendo 7,5%, a taxa mais alta em 24 anos.

Várias das crises que ameaçaram a autonomia do BC jamais vieram a público. Nos últimos dois meses, o Valor conversou com personagens que frequentaram a sala de reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) no período 2003-2010 e apurou algumas dessas histórias. É ali, no oitavo andar do edifício-sede do BC em Brasília, num ambiente frio, mas adornado por uma tela de 5 por 4 metros do pintor Cândido Portinari – “Descobrimento do Brasil”-, que o Comitê se reúne para decidir os destinos da economia brasileira, definindo, a cada 45 dias, a taxa básica de juros (Selic).

Os relatos, mantidos no anonimato graças ao chamado “dever fiduciário” de ex-integrantes do Copom, revelam que a autonomia do BC foi sempre muito frágil. Em 2004, por exemplo, temendo os constantes ataques de integrantes do governo, três diretores foram a Meirelles pedir as contas. Em 2005 e 2006, o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, montou uma operação para substituir Meirelles e dois diretores oriundos do mercado. Realizou parte do plano, mas sua própria demissão, em março de 2006, o impediu de concluí-lo.

Em 2008, não somente o emprego de alguns diretores esteve em risco, mas também a própria continuidade da política econômica adotada cinco anos antes. Naquele ano, o Ministério da Fazenda liderou um ataque persistente à autonomia do BC – mais recentemente, já na transição do governo Lula para o de Dilma Rousseff, a Fazenda tentou, novamente, enfraquecer o banco ao propor, nos bastidores, a extinção do status de ministro do qual goza hoje o presidente da instituição.

Os fatos mostram que, embora o BC tenha conseguido alcançar resultados positivos nos últimos anos, a ausência de autonomia formal limita sua ação, tornando-a mais onerosa para a sociedade. A desconfiança de que o Copom age sob pressão política faz o mercado duvidar do interesse do governo em combater a inflação. As evidências mostram que, quanto menor é a inflação por um período maior de tempo, menor é a taxa de juros exigida pelo mercado e, portanto, menor o custo de rolagem da dívida pública.

“Vai indo…”

Era março de 2008 quando o presidente do BC, Henrique Meirelles, convidou um importante diretor da instituição para jantar num restaurante de Miami. Ambos participavam, na cidade americana, da reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O objetivo era explicar que, dessa vez, seria difícil segurar a pressão do governo contra o início de um novo ciclo de aperto monetário.

O presidente do BC alegou que não havia clima no governo para aumento dos juros. Num dado momento da conversa, sugeriu que ele, aquele diretor e um terceiro colega pedissem demissão. Seria uma forma, justificou, de os três não se submeterem à pressão do governo. O diretor ficou surpreso com a proposta, mas aguardou a frase seguinte do chefe para entender o real propósito da conversa.

“Vai indo que depois eu vou”, propôs Meirelles, ressalvando, em seguida, que “trâmites burocráticos” o obrigariam a permanecer no cargo por mais algum tempo, após a saída dos dois auxiliares. A reação do diretor também surpreendeu Meirelles: “O que é isso, presidente? Não vamos fazer uma coisa dessas com o senhor. Seria uma desfeita muito grande. Sairemos todos juntos”.

O colóquio se encerrou ali. Meirelles disse ao interlocutor que conversaria com o presidente Lula na volta ao Brasil. O diretor saiu do jantar com a nítida impressão de que retornaria ao país sem saber se continuava diretor. O episódio marcou o período mais conturbado da gestão de Meirelles à frente do Banco Central.

De volta a Brasília, o presidente do BC comandou a reunião do Copom que, no dia 16 de abril de 2008, contrariando todas as pressões sofridas até ali, aumentou a taxa Selic de 11,25% para 11,75% ao ano. Nos dias seguintes, chegou a acreditar que Lula o demitiria. Além disso, ele sabia que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pressionava o presidente para substituí-lo pelo economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

Esse drama começou a se desenhar alguns meses antes, quando o BC, utilizando seus códigos de comunicação, passou a sinalizar ao mercado que voltaria a aumentar os juros. O movimento já era esperado e alguns participantes do mercado acreditavam que estava vindo tarde demais.

O Copom passara dois anos – de outubro de 2005 a setembro de 2007 – reduzindo os juros, que recuaram de 19,5% para 11,25% ao ano. A taxa foi mantida nesse patamar até março de 2008. No período, a economia viveu o seu momento mais luminoso na era Lula. O PIB crescia a 6% ao ano, com a inflação sob controle – em 2007, o IPCA atingiu a meta (4,46%).

O problema é que, assim como ocorreu em 2004, a inflação começou a mostrar sinais preocupantes de aceleração. Quando decidiu interromper a queda dos juros em outubro de 2007, o Comitê já o fez porque percebeu que a economia estava muito aquecida. No fim do ano, ficou claro que seria necessária uma nova rodada de aperto monetário.

Os códigos do Copom

No início de 2008, o diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita, sugeriu a Meirelles que se fizesse um ajuste preventivo na Selic. Seria uma forma de promover uma aterrissagem suave da economia. Para tanto, seria necessário preparar o mercado para a alta de juros que viria adiante.

A boa comunicação com os agentes econômicos é crucial para o funcionamento do regime de metas. É por meio dela que o BC gerencia as expectativas do mercado, trazendo-as para sua leitura da economia. O objetivo do banco não é surpreender o mercado, mas dar previsibilidade a seus movimentos.

O atual código de comunicação do Copom foi desenvolvido por Afonso Bevilaqua, diretor de Política Econômica entre julho de 2003 e março de 2007, e aperfeiçoado por Mesquita. Por esse código, o aviso ao mercado de que vem aumento de juros no horizonte é feito por meio de duas reuniões.

Na primeira, através do comunicado divulgado nos dias da reunião do Copom, os diretores afirmam que vão “acompanhar” a evolução da economia. Na ata dessa reunião, divulgada sempre oito dias depois, eles apertam a linguagem. No comunicado da reunião seguinte do Copom, o BC diz que vai “monitorar atentamente” o cenário econômico. Na ata da semana seguinte, há um novo aperto na linguagem. No terceiro encontro do Comitê, ocorre o aumento dos juros.

Nos oito anos à frente do BC, Henrique Meirelles procurou amortecer pressões políticas que chegavam de todos os lados. Nenhum diretor recebeu qualquer apelo dele para votar desta ou daquela maneira Bevilaqua e Mesquita costumavam usar também os anexos do Relatório de Inflação, divulgado trimestralmente com informações detalhadas sobre o estado da economia, para mandar recados ao mercado. Mesquita fez outra inovação. No começo do regime de metas, em 1999, as atas do Copom não eram escritas de forma incremental. Os documentos começavam do zero. De 2007 a 2010, Mesquita escreveu as atas a partir de sua última versão, elaborada na reunião anterior. A partir dali, ficou mais fácil entender a narrativa e, com isso, houve uma melhora sensível na comunicação do BC.

A ofensiva de Mantega

Assim como o mercado, Mantega e sua equipe entendem muito bem os códigos do Copom. Na ata da reunião de janeiro de 2008, estava escrito: “O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico (…)”. Na ata do encontro seguinte, em março, veio o sinal derradeiro: “O Comitê irá monitorar atentamente (…)”.

Inconformado, Mantega foi à luta. Aproveitando-se do fato de que Meirelles estava de férias no início de março daquele ano, convocou o diretor Mário Mesquita para uma reunião na Fazenda. Durante o colóquio, sem deixar o interlocutor dizer uma palavra, falou durante 40 minutos sobre as hipóteses que o levavam a crer que não seria necessário elevar os juros naquele momento.

Tendo entrado mudo e saído calado da conversa, Mesquita ignorou os argumentos do ministro. Dias depois, deu entrevista coletiva para anunciar o Relatório de Inflação de março e praticamente confirmou que os juros subiriam na reunião de abril. Mantega se sentiu pessoalmente afrontado e queixou-se a Meirelles. Considerou um “absurdo” um funcionário de segundo escalão desautorizá-lo daquela maneira.

Ainda era março quando, durante reunião de Lula com conselheiros informais, entre os quais Belluzzo e o ex-ministro Delfim Netto, Mantega expôs, na presença de Meirelles, os riscos de o Brasil voltar a gerar déficits elevados nas contas externas. Durante o encontro, previu-se que, dali a dois anos, a elevação do déficit provocaria uma forte desvalorização do real e, por consequência, pressão inflacionária. Em resposta, o Banco Central jogaria a taxa de juros na lua e a economia entraria em depressão.

Era o pior dos mundos para Lula – afinal, seu projeto prioritário era eleger o sucessor a qualquer custo. De maneira sub-reptícia, participantes da reunião sugeriram ao presidente a mudança da política econômica. O modelo mencionado era o da Argentina, que naquele momento crescia de maneira veloz, com juros negativos e câmbio prefixado e desvalorizado, apesar da inflação alta.

Aqueles encontros eram constrangedores para o presidente do BC pois, como autoridade monetária, ele tem “dever fiduciário”. Como havia consultores privados nos convescotes, Meirelles evitava emitir opiniões que sugerissem aos presentes futuras decisões do BC.

Medo de crescimento

Um terceiro movimento de Mantega, para tentar evitar a alta dos juros, foi procurar convencer o presidente da República a aprovar medidas de controle do crédito. Lula rejeitou a sugestão. O ministro, então, decidiu chamar os principais banqueiros do país para uma reunião em Brasília, com a presença dos diretores do BC Mário Mesquita, Mário Torós (Política Monetária) e Alexandre Tombini (Normas). No encontro, Mantega reconheceu que havia um problema de inflação, mas disse que não seria possível subir os juros e que seria preciso resolvê-lo com restrições ao crédito.

Não satisfeito, no início de abril, durante reunião do chamado Conselhão, instância criada por Lula para reunir empresários no Palácio do Planalto com alguma periodicidade, o ministro deu uma estocada na turma do BC. “Os ortodoxos costumam ter medo do crescimento. Acham que traz desequilíbrios econômicos”, afirmou.

A tese defendida pela Fazenda era de que o aumento da inflação, naquele momento, decorria da alta sazonal dos preços de alimentos. De tanto ouvir o argumento, Mesquita pediu a Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do BC, para retirar do IPCA os cinco itens que mais o pressionavam naquele momento e também os cinco que mais caíam. O resultado foi o mesmo. Em qualquer medida de núcleo, a inflação estava subindo.

O tempo mostrou que o BC estava certo. A despeito das pressões do governo, o Copom aumentou os juros em abril e nos meses seguintes, até setembro de 2008. No dia 15 daquele mês, o banco americano Lehman Brothers quebrou e a crise atingiu o Brasil. A economia teve uma parada brusca no último trimestre, mas, mesmo assim, o IPCA fechou o ano em 5,9%, apenas 0,6 ponto percentual abaixo do limite máximo de tolerância do regime de metas. Nos 12 meses concluídos em outubro, batera em 6,41%, depois de ter iniciado o ano em 4,56%. Como estava convencido de que a meta seria descumprida, Mesquita já tinha começado a escrever a carta aberta ao ministro da Fazenda, explicando os motivos da inadimplência. Por causa da crise, a carta acabou não sendo necessária.

“Viu, Meirelles?”

O ministro Guido Mantega não economizou esforços para tentar evitar a elevação dos juros, inclusive fazendo pressão sobre Henrique Meirelles publicamente. A pressão sobre o Copom em 2008, embora tenha sido a mais forte em oito anos de Lula, repetiu padrão do ano anterior. No dia 22 de janeiro de 2007, início do segundo mandato do presidente, o governo lançou com toda pompa, no Palácio do Planalto, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Tendo superado a crise do mensalão e obtido a reeleição com o apoio de 14 partidos, Lula começava, ali, a fazer uma inflexão na política econômica que adotara no primeiro mandato. A ordem era gastar mais e aumentar a presença do Estado na economia.

Durante a cerimônia, Mantega apresentou cenários para a taxa de juros nos anos seguintes e aproveitou o momento para fustigar o presidente do BC. “A primeira conclusão é que o mercado está esperando uma redução da taxa Selic. A continuação, viu, Meirelles?”, disse Mantega, diante de uma plateia de empresários, ministros e parlamentares.

O gesto foi entendido pela diretoria do BC como uma tentativa de constranger o Copom, que já vinha discutindo, internamente, a possibilidade de diminuir o ritmo de queda da Selic, de 0,5 para 0,25 ponto percentual. Na ata da última reunião de 2006, o Comitê emitira o primeiro sinal ao afirmar que acompanharia “atentamente” a evolução da inflação nos meses seguintes.

O Copom vinha reduzindo os juros desde setembro de 2005. No fim de 2006, o BC constatou que a economia estava decolando. A inflação, que em 2006 caiu ao menor patamar da história do regime de metas – 3,14% -, começava a ficar saliente.

Ignorando a admoestação de Mantega, no dia 24 de janeiro de 2007, dois dias depois do lançamento do PAC, o Copom reduziu o ritmo de corte da Selic, de 13,25% para 13% ao ano. Ali, as relações entre Fazenda e BC, que já não eram boas, azedaram de vez.

A primeira crise ninguém esquece

O primeiro momento de ameaça à autonomia do BC, no governo Lula, ocorreu em setembro de 2004. Até então, o banco vivera um período de trégua, para contornar a crise de 2003, ano em que o presidente Lula assumiu o poder. Para combater uma inflação que, nos 12 meses acumulados até maio, chegara a 17,24%, o Copom elevou os juros a 26,5% ao ano. À medida que as expectativas de inflação foram melhorando, o Comitê foi diminuindo a Selic.

Em abril de 2004, a taxa caiu a 16% ao ano e ficou nesse patamar nos quatro meses seguintes. Já em meados do ano, o BC constatou que a economia havia superado a depressão de 2003 e acelerava numa velocidade insustentável. A inflação corrente anualizada, que vinha cedendo desde maio do ano anterior, voltara a crescer. Depois de cair de 17,24% em maio de 2003 para 5,15% nos 12 meses acumulados até maio de 2004, tornara a subir, chegando a 7,18% em agosto daquele ano. As expectativas se deterioravam.

O BC começou, então, a sinalizar ao mercado que voltaria, em breve, a elevar os juros. O aviso provocou grande mal-estar no governo. Por causa das medidas de ajuste fiscal e do arrocho monetário, 2003 tinha sido um ano difícil para o presidente Lula. O PIB avançara apenas 1,15%. O segundo ano do mandato começara com perspectivas bem melhores, com a economia acelerando – em 2004, o crescimento atingiu 5,71%.

O receio de integrantes do governo era de que a expansão de 2004 fosse abortada por “excesso de conservadorismo” do Copom. Além disso, aquele era um ano eleitoral, em que estava em disputa a reeleição da então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, do PT, tendo como adversário José Serra, do PSDB. Derrotada no pleito, Marta responsabilizou a política econômica do governo pelo malogro.

As críticas ao BC pipocavam de todos os lados, da diretoria da Petrobras ao então poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Internamente, embora não fossem alvos diretos daquela pressão política, os diretores do BC começaram a temer pela manutenção da autonomia.

Os sinais de insatisfação com o banco eram evidentes. Indicado em julho de 2004 para assumir a diretoria de Política Monetária, o economista Rodrigo Azevedo, oriundo do mercado – ele veio do banco Credit Suisse First Boston -, teve que esperar três meses para ser sabatinado pelo Senado. Os amigos brincavam dizendo que ele passara por quarentena na entrada e na saída do BC, mas a da entrada não tinha sido remunerada.

Dizia-se que a saída de Afonso Bevilaqua da diretoria de Política Econômica (que acabou se dando em março de 2007) seria a moeda de troca para a permanência de Meirelles na presidência do BC. Poucos dias antes da reunião do Copom de 15 de setembro, três diretores – Eduardo Loyo (Estudos Especiais), Afonso Bevilaqua (Política Econômica) e Alexandre Schwartsman (Assuntos Internacionais) – foram ao gabinete do presidente do banco, no 20º andar do edifício-sede da instituição em Brasília. Durante o encontro, deixaram claro que, naquele ambiente, não conseguiriam trabalhar. A preocupação era com a possibilidade de as críticas se tornarem pressão real sobre os integrantes do Comitê.

Meirelles entendeu a conversa como um pedido velado de demissão. Preocupado, deu garantias de que a autonomia estava assegurada. Na reunião do dia 15, o Copom aumentou a taxa de juros para 16,25% ao ano. O novo aperto monetário, o segundo da era Lula, estava apenas começando. Apesar das garantias dadas por Meirelles, nos meses seguintes as críticas ao BC não cessaram.

Interessado em conquistar apoio político para sua diretoria, o presidente do BC conseguiu agendar, com a ajuda do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, um encontro dos diretores com o presidente Lula, em dezembro de 2004. O objetivo era distender as relações. Na reunião, Meirelles e os diretores mostraram a Lula que a inflação é um “mecanismo perverso de distribuição de renda às avessas”. Beneficia os mais ricos e penaliza os pobres. A conversa foi boa, mas seus frutos não foram duradouros, como se viu depois.

A operação Palocci

O aperto monetário iniciado em setembro de 2004 se estendeu até setembro de 2005, o ano mais difícil, do ponto de vista político, para o presidente Lula. Foi o ano do escândalo do mensalão, quando experimentou os níveis mais baixos de popularidade. O BC conseguiu domar a inflação, derrubando-a para 5,7%, depois de fechar 2004 em 7,6%, mas o ajuste teve um preço. O PIB cresceu apenas 3,16% em 2005.

Por causa da crise política e do ajuste na economia, a pressão sobre o BC se intensificou. A queda do PIB no terceiro trimestre (-0,98%), em meio à fase mais aguda da crise política, levou o então presidente do BNDES, Guido Mantega, a responsabilizar o Banco Central pelo resultado e particularmente Afonso Bevilaqua, deixando claro que a ira do governo era dirigida exclusivamente aos diretores do BC originários do mercado.

Ao perceber que não conseguiria conter a pressão por muito mais tempo, Palocci iniciou em 2005 um movimento em dois atos. Inspirado na máxima do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, segundo a qual é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique como está, Palocci convidou o então diretor executivo do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI), Murilo Portugal, para retornar ao Brasil e assumir a secretaria-executiva da Fazenda.

O aperto monetário iniciado em setembro de 2004 se estendeu até setembro de 2005, o ano mais difícil, do ponto de vista político, para o presidente Lula, quando o escândalo do mensalão fez cair sua popularidade. Ato contínuo, Palocci chamou o sub de Portugal no Fundo, Alexandre Tombini, para comandar uma diretoria do BC (a de Estudos Especiais). Por fim, convenceu Eduardo Loyo, então diretor dessa área, a assumir a representação brasileira no FMI. O segundo ato seria mais ousado, mas acabou não ocorrendo porque, antes, em março de 2006, o ministro perdeu o cargo, acusado de envolvimento na quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa – em agosto de 2009, o Supremo Tribunal Federal o inocentou.

O plano de Palocci era, num segundo momento, deslocar Murilo Portugal para a presidência do BC e Henrique Meirelles, para o Ministério do Planejamento. Meirelles sabia do plano e estava conformado, tanto que já falava, em conversas reservadas, da “importância do Planejamento”. As mudanças não caracterizariam, pelo menos no papel, o enfraquecimento do BC. A parte mais difícil da operação seria demitir o principal alvo da cólera governista – Afonso Bevilaqua.

Com a queda de Palocci, Guido Mantega, o maior oponente no governo à política monetária, ascendeu ao cargo de ministro de Fazenda. Dias difíceis estavam por vir.

Bevilaqua: a falsa moeda de troca

Com a frustração do segundo ato da operação Palocci, Bevilaqua ficou no cargo, mas os ataques da artilharia do governo se intensificaram. Depois de três anos no cargo, Bevilaqua planejava deixar o banco. Por causa da ausência de mandato, diretores provenientes do mercado e da academia não costumam levar suas famílias para Brasília, afinal, a perda do emprego é sempre iminente. Na capital federal, eles moram em hotéis.

O trabalho no BC afastou Bevilaqua do convívio diário com o filho de três anos. O salário – R$ 8.234,00, na ocasião -, menor que o de um funcionário em início de carreira (cerca de R$ 14 mil), também não ajudava muito, embora a passagem pela instituição seja encarada como um investimento no futuro; são raros os casos de ex-diretores que, depois de deixar o BC, não fazem fortuna no setor privado.

Os rumores de que Bevilaqua deixaria o BC avolumaram-se em março de 2006, quando Palocci deixou a Fazenda. De fato, ao longo do ano, ele tratou várias vezes da saída com o presidente Henrique Meirelles. Ficou acertado, porém, que a estratégia seria evitar que a saída fosse vista como uma capitulação do BC às pressões da Fazenda.

Na transição do primeiro para o segundo mandato de Lula, novos rumores deram conta de que a saída de Bevilaqua seria a moeda de troca para a permanência de Meirelles. Para desmentir essa tese uma vez mais, Bevilaqua permaneceu no BC até março de 2007, tendo, inclusive, participado da polêmica reunião do Copom em janeiro e do primeiro dia do encontro de março.

No anúncio da saída do diretor, questionado se a demissão do seu “braço direito” o tornava mais exposto ao “fogo amigo” no governo, Meirelles deu a dimensão das pressões que sofreu desde sempre: “Ele [o fogo amigo] nunca me abandonou”.

O fim do equilíbrio

Embora Meirelles tenha feito questão de deixar claro que o BC não estava se enfraquecendo, a saída de Bevilaqua foi o prenúncio de uma nova fase no Copom. Quando Ilan Goldfajn, remanescente da gestão Armínio Fraga, deixou a diretoria de Política Econômica em maio de 2003, Meirelles trouxe Bevilaqua e Loyo. Com isso, mostrou ao mercado que a autonomia concedida por Lula era para valer.

A diretoria do BC passou a ter, naquela época, quatro diretores oriundos do mercado e da academia e quatro da instituição. Como Meirelles também é oriundo do mercado, houve, na maior parte do primeiro mandato de Lula, predomínio de dirigentes de fora da casa. No segundo mandato, esse quadro inverteu-se inteiramente.

A partir de 2007, os diretores de fora que saíram do BC foram substituídos por funcionários do banco. Com a demissão de Mário Torós, em novembro de 2009, restou apenas Mário Mesquita, mas este também deixou o BC em março deste ano.

Ninguém duvida, mesmo no mercado, que os funcionários do Banco Central sejam, em geral, qualificados e representem uma ilha de excelência em Brasília. Ainda assim, o seu domínio no Copom, sem mandato, resulta num desequilíbrio que ameaça a autonomia operacional do BC. Assim como uma diretoria dominada por nomes do mercado poderia ser capturada pelos interesses das instituições financeiras, uma com a predominância de funcionários de carreira pode ser controlada pelos interesses políticos do governo.

Os números da economia brasileira mostram que a autonomia, na prática, funcionou nos anos recentes. Em oito anos, graças à atuação do BC, o país superou duas graves crises – em 2003 e 2008 -, aumentou a sua média de crescimento e controlou a inflação, embora ela ainda esteja num patamar elevado quando comparada a padrões internacionais.

De olho nos jornais de Goiânia

Nos oito anos à frente do Banco Central, Meirelles procurou amortecer as pressões políticas que lhe chegavam de todos os lados. Ele operou, durante todo esse tempo, para evitar que assuntos políticos chegassem ao Copom. Não há sequer um diretor oriundo do mercado ou da academia que tenha recebido qualquer apelo dele para votar desta ou daquela maneira.

Praticamente não houve, durante todo esse período, uma reunião do Comitê sem que, antes, Meirelles conversasse com o presidente Lula. As conversas nem sempre foram fáceis. Em dia de Copom, dois diretores que moravam no Hotel Blue Tree (hoje, Royal Tulip), vizinho do Palácio da Alvorada às margens do Lago Paranoá, viram mais de uma vez Meirelles chegar à residência oficial do presidente da República em sua SUV Hilux.

Nos dias anteriores à reunião do Comitê, o presidente do BC procurava conversar individualmente com cada diretor. Nessas conversas, falava do quadro político, mas eximia-se de dar orientações. Por outro lado, em alguns momentos, Meirelles dividiu-se entre dois personagens: o banqueiro central que precisava zelar por sua reputação técnica e o político que ambicionava entrar em disputas eleitorais.

O presidente do BC acalentou, por exemplo, disputar eleições em seu Estado natal. Seu último projeto político-eleitoral, frustrado pelas artimanhas dos líderes do seu partido, o PMDB, foi ser vice na chapa de Dilma Rousseff à Presidência da República. Para saber dos interesses políticos do chefe, os diretores cultivaram o hábito de ler os jornais de Goiânia.

Para alguns diretores, Meirelles “passou da conta” em alguns momentos por causa de suas aspirações políticas, mas nada que pudesse pôr em risco a estabilidade da economia brasileira.

O que é possível fazer com um censo?

Veja como o censo norte-americano pode ser visualizado. Navegue um pouco caso tenha curiosidade. O impressionante é como etnias são dividas nas grandes cidades. Por mais que quem tenha visitado ou morado nos EUA saiba disso, nada melhor do que os dados para mostrar precisamente a realidade.

O que os americanos pensam do Brasil?

CBS 60 minutes.

WikeLeaks: repetindo

Há 2 dias, escrevi o post abaixo. Ontem, Julian Assange, fundador do WikiLeaks, foi preso. Hoje, o contra-ataque dos “geeks encapuzados” já está no noticiário.

Evgeny Morozov, atualmente na Universidade Stanford, já havia argumentado no Financial TIme que os Estados Unidos estavam na linha errada ao tentar punir Assange. A guerra virtual entre sociedade e governo continua – transbordou as fronteiras da China e globalizou-se.

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