O que esperar dos céus?

.

Desigualdade social não cai de pára-quedas. É moldada ao longo do tempo pela preferência da sociedade sobre a redistribuição da riqueza e por políticas públicas.

No Brasil, a ditadura militar aprofundou o fosso que divide ricos e pobres. O fim da inflação, a abertura econômica, o maior acesso à educação básica e a medicamentos, programas de transferência de renda contribuíram para aliviar a desigualdade. Embora caia há 11 anos, a desigualdade ainda não atingiu o patamar de 1960. A sexta maior economia pertence ao grupo dos doze países mais desiguais do mundo.

A dissonância entre crescimento e desigualdade não é promissora para um país que busca o reconhecimento de liderança global. Para o Brasil dar este passo precisa atacar um problema estrutural:  como fazer com que a arrecadação de impostos e o gasto público não continuem perpetuando a desigualdade social e, simultaneamente, possibilitem o crescimento econômico?

É um pergunta quente, de futuro, embora pouco discutida no meio político.

Para dar uma breve dimensão do problema na vida das pessoas, imaginemos dois exemplos fictícios.  João tem 27 anos, branco, nascido em Campinas (SP), e estudou economia da UnB. Administra a empresa herdada do pai, após concluir um MBA nos Estados Unidos. Maria tem a mesma idade, cabocla, nascida em Belágua (MA), onde completou o ensino básico. Recebe menos de dois salários mínimos por mês como funcionária pública.

Qual seria a probabilidade de Maria fazer MBA no exterior? E de contribuir com mão-de-obra qualificada na expansão econômica do país? E de abrir uma empresa que será financiada pelo BNDES? Praticamente zero. Maria não teve acesso a serviços públicos de qualidade que a tornassem competitiva para os mesmos desafios profissionais de João. Conforme recente estudo do Banco Mundial sobre a América Latina, o local onde uma pessoa nasce, seu sexo e coloração da pele combinados parecem indicar o probabilidade de alguém sair a linha da pobreza ou não, uma vez que tais características parecem indicar as pessoas com menos oportunidades.

Maria nasceu em uma armadilha da pobreza. Ao mesmo tempo, trabalhadores que recebem até dois salários mínimos, como ela, trabalham 197 dias ao ano somente para pagar impostos, enquanto os que recebem mais de 30 salários mínimos, como João, 106 dias, segundo o IPEA. Essa distorção é gerada pelo excesso de imposto sobre consumo (48% do total). João e Maria pagam os mesmos 25% sobre a energia elétrica consumida em suas casas, sobre a roupa comprada e a cerveja do final de semana. Enquanto o imposto sobre herança é baixo (4%) e o sobre bens de luxo, tais como avião particular, é inexistente.

É papel do Estado desatar os nós do sistema fiscal que ainda faz a desigualdade persistir. Não se trata de criar mais “bolsas”. Chegou a hora de retomar reformas abrangentes e efetivas, incluindo a repactuação dos papéis desempenhados pelo governo federal, estados e municípios na arrecadação de impostos.

Na construção de sociedade mais justa e um país mais rico, “Maria” não pode esperar que um melhor futuro virá com a queda de um pára-quedas no quintal, enquanto “João” não precisa pagar imposto sobre seu helicóptero.

Anúncios

Convite: lançamento do livro “Fazendo as malas”

.

Gostaria de convidá-los para participar do lançamento do livro “Fazendo as malas – histórias de jovens que contribuem com o Brasil a partir de suas experiências no exterior” organizado pela Editora Saraiva em São Paulo e Rio de Janeiro. Infelizmente, não poderei estar presente, mas, de alguma forma, verão minha cara por lá!

Comparar é preciso, viajar não é preciso

.

Compartilho um post que escrevi para o blog do Comparação de Fundos sobre o mecanismo que criaram que dá ao consumidor mais ferramentas para escolher fundos e acompanhar investimentos (clique aqui).

Faça as malas, pois o trem que chega é o mesmo da partida

.

Não me esqueço do dia que deixei o Brasil rumo à Universidade Columbia, em Nova York. Era um sonho de adolescente, provavelmente resultado das frustrações da geração-década-perdida que percebeu que para fazer o Brasil dar certo era preciso levar a sério os estudos, mas também o conhecimento de novas realidades. O conhecimento edifica-se, por definição, em comparações, em diferenciações.

5 anos se passaram. Nova York, Washington-DC, Genebra e, agora, Zurique. Neste meio tempo, rodei meio mundo e, mais importante, fiz amizades incríveis. Mas, para um vida profissional agitada, nada me acalma mais do que a certeza da volta. Espero que logo.

Minha história não é a única, tampouco a mais interessante, mas foi uma das descritas no livro “Fazendo as malas – histórias de jovens que contribuem com o Brasil a partir de suas experiências no exterior” recém publicado pela Editora Saraiva. O livro reúne 17 jovens que escrevem sobre diferentes áreas do conhecimento. Fiquei encarregado do tema “governo e administração pública”, já que é minha área de trabalho e estudo. O Ministro Celso Amorim nos brindou com o prefácio.

Fica, portanto, a sugestão de leitura para aqueles que têm curiosidade ou vontade de morar e trabalhar fora do país. Compartilho, abaixo, um vídeo preliminar com depoimentos dos autores.

 

Nossa página no facebook é http://www.facebook.com/livrofazendoasmalas.

Matéria que saiu no Jornal Estado de Minas (Clique aqui).

“Ex” tem que ser de vez

.

O recente caso Lula-Mendes nos sugere, pelo menos, duas coisas:

1) Presidente pode ser reeleito, mas não deveria ter o direito de ser candidato à presidência novamente. Porque? Confere a uma pessoa um poder político desleal em relação aos outros políticos do partido. Atribui aos ex-Presidentes uma figura monárquica na vida partidária.

2) Um ex-Presidente deveria ter um código de conduta claro. Deixou o ofício, mas ainda representa a nação e é pago pelo contribuinte (exemplo: segurança, aposentadoria, etc.). O desvio de conduta pode ser traumático para o sistema político, dado o peso político que um “ex” pode ter.

Já que é “ex”, tem que ser de vez.

“Vadias” fazem bem feito

.

Em homenagem à legítima Marcha das Vadias, que ocorreu em diversas cidades brasileiras ontem, compartilho um artigo interessante (clique aqui) de Fernanda Brollo e Ugo Troiano apresentado na Conferência da LACEA em Cartagena na semana passada.  Os autores concluem que quando uma mulher é eleita prefeita de um município brasileiro, ela tem uma maior probabilidade – do que um homem – de melhorar os serviços de saúde prestados para a população, atrair mais transferências do governo federal para o município e, por sua vez, menor chance de se envolver em irregularidade administrativa ligada a licitação pública.

Mais efetivo do que os seios à mostra como forma de protesto pela igualdade de gênero, é a consistência do bom trabalho que muitas mulheres brasileiras fazem no dia-a-dia, como evidencia o artigo citado.

Para o Brasil, é sempre tempo para África

.

Sou um entusiasta da aproximação diplomática e comercial entre Brasil e África. Por ideologia, mas sobretudo por pragmatismo. Algumas palavras sobre os desafios desta parceria que publiquei no Guaracui.

O valor da sua informação

.

Por que o Facebook está avaliado entre 75 e 100 bilhões de dólares? Porque sua  informação – e dos outros 845 milhões de usuários – vale muito dinheiro. Como assim? Veja este artigo do NY Times explicando os diferentes usos do “Big Data” espalhados pela internet.

Interessante notar a importância do uso desses dados para fins públicos, como prevenção de pandemias, medida de inflação em tempo real, tendências sociais e econômicas. Sem dúvida, esta é uma indústria nascente e promissora.

Algumas leituras

.

A pedido de uma amiga, consolidei algumas leituras recentes e outras na prateleira ainda. Divido-as com vocês.

Diplomacia
 
The Future of Power, Joseph Nye: Excelente livro que dá um panorama geral, preciso e moderno de relações internacionais.
 
On China, Henry Kissinger: Indispensável para o entendimento da diplomacia chinesa vista sob o prisma ocidental. No Brasil já saiu a tradução.
 
Civilization: The West and the Rest. Niall Ferguson. Visão geral da história da civilização e do deslocamento do poder global ao longo do tempo. Há partes sobre a China que remetem ao livro de Kissinger. Niall segue uma linha mais liberal. É o autor The Ascent of Money, que também é um livro que vale a pena ser lido.
 
The Return of history and the End of Dreams, Robert Kagan. Kagan é um conservador ao estilo norte-americano – assessorou John McCain nas últimas eleições presidenciais. Seu livro, de 2008, é curto e bastante interessante. Constrói sua análise global ao dividir o mundo por áreas temáticas, a exemplo da religião.  É um bom diálogo com Francis Fukuyama e Samuel Huntington.  
 
Conversas com Jovens Diplomatas, Celso Amorim. Vale a pena ler uma coletânea dos discursos que Amorim fez no Itamaraty para alunos do Rio Branco. Querendo ou não, Amorim foi um ponto de inflexão em várias questões diplomáticas do Brasil, a exemplo de cooperação internacional para o desenvolvimento.

The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy, Dani Rodrik. Uma análise econômica do processo de globalização que mostra como, no final das contas, os problemas globais devem ser resolvidos em casa.

Crise Econômica e Política Monetária
 
Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy. R. Rajan. Para mim, o melhor e mais bem escrito livro sobre a crise financeira iniciada nos Estados Unidos. É melhor do que Freefall, de Stiglitz. Estou aguardando um sobre a crise européia – sobretudo os fatores microeconômicos e políticos.
 
13 Bankers: The Wall Street Takeover and the Next Financial Meltdown. Simon Johnson e James Kwak. É o melhor livro escrito sobre a economia política do processo de cooptação da arena política pelo setor financeiro norte-americano – que se estendeu por vários países ao redor do mundo.
 
This time is different: eight centuries of financial folly, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff. Não li o livro, mas li os artigos que resultaram no livro. A partir de análises de um novo e vasto banco de dados, o livro ajuda a compreender melhor como crises econômicas estão atreladas a crises de dívida pública, a exemplo da Europa atualmente.
 
Exorbitant Privilege, Barry Eichengreen. Excelente análise do exorbitante privilégio que os Estados Unidos têm pelo fato do dólar ser moeda de troca do mercado internacional. Ainda.
 
Economia do Desenvolvimento
 
Poor Economics: A Radical Rethinking of the Way to Fight Global Poverty, Abhijit Banerjee e Esther Duflo. Excelente livro – e didático – de como usar testes aleatórios para avaliar intervenções com o objetivo de reduzir a pobreza e promover desenvolvimento econômico. Outro bom livro sobre o mesmo tema é More Than Good Intentions: How a New Economics Is Helping to Solve Global Poverty, Dean Karlan, Jacob Appel.
 
The Next Convergence: The Future of Economic Growth in a Multispeed World. Michael Spence. É um livro abrangente e didático sobre grandes tendências econômicas, relatadas por um Prêmio Nobel. É um livro mais generalista. 
 
Estratégia
 
The Innovator’s Dilemma: When New Technologies Cause Great Firms to Fail, Clayton Christensen.  O que aflige o inovador? É nele que se inicia o processo de destruição criativa – o grande tema do economista Joseph Schumpeter.
 
Good Strategy Bad Strategy: The Difference and Why It Matters. Richard Rumelt. Refrescante ler um livro de estratégia com um boa dose de sensatez e preocupado com a realidade. Geralmente são piedantes. 
 
Na prateleira
 
Triumph of the City: How Our Greatest Invention Makes Us Richer, Smarter, Greener, Healthier, and Happier, E. Glaeser.
 
Thinking, Fast and Slow, Daniel Kahneman.
 
Too Big to Know: Rethinking Knowledge Now That the Facts Aren’t the Facts, Experts Are Everywhere, and the Smartest Person in the Room, David Weinberger
 
The Sugar Barons: Family, Corruption, Empire, and War in the West Indies, Matthew Parker
 
Dancing in the Glory of Monsters: The Collapse of the Congo and the Great War of Africa, Jason K. Stearns
 

Admito que acabei de ler A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro, e O que sei de Lula, do Neumanne, em recente visita ao Brasil. Não os listei, pois não creio que são tão-boas leituras. O interessante é que “Privataria Tucana” parecer trazer a visão do PT de Minas Gerais e “O que sei de Lula”, do PSDB-mais-a-direita/DEM de São Paulo. Enquanto o primeiro levanta sérias acusações contra Serra, que merecem explicação pública, o segundo é bem escrito. O problema é o viés de ambas publicações.

Brasiláfrica

.

Metade do Brasil veio da África; e ainda a temos dentro de nós. Assim como é impossível conhecer o Brasil sem considerar a história da gente africana que aqui desembarcou – de forma, muitas vezes, sub-humana -, não podemos pensar o Brasil do futuro sem levar em conta o necessário e inevitável envolvimento com a África.

O Banco Mundial e o IPEA lançaram um excelente relatório sobre a relação e a cooperação “sul-sul” entre África e Brasil. Confira aqui.