Avalanche de Ministros, sociedade civil e política pública

.

A avalanche de Ministros no primeiro ano do governo Dilma, vários deles defenestrados devido a casos de corrupção por meio de Entidades sem Fins Lucrativos (ESFLs), causou um desconforto da sociedade com organizações da própria sociedade civil. EDFLs passaram a ser vistas por muitos como atalhos para a corrupção, conforme os anunciados.

É importante, porém, não deixar com que manifestações isoladas do patrimonialismo brasileiro manche o papel fundamental que essas organizações têm para a prestação de serviços públicos, sobretudo na área social. O grande ponto para  debate é como garantir com que tais organizações, ao receber recursos públicos, trabalhem de maneira transparente, comprometam-se com resultados, prestem contas, e garantam que o retorno sobre os recursos públicos recebidos seja superior ao que o Estado obteria executando os mesmos serviços acordados.  Claro, tudo isso blindado, na medida do possível, de interesses político-partidários ou individuais.

Para iniciar uma discussão deste tipo é preciso estarmos cônscios do ponto de partida. Os dados consolidados sobre o montante de recursos destinados a ESFLs eram inexistentes. O IPEA coordenou o primeiro levantamento sobre o perfil de transferências governamentais para ESFLs, mostrando a evolução desses gastos de 1999 a 2010. Em 2010, R$ 4,1 bilhões foram transferidos para tais organizações, de modo que, em média, 50% dos recursos foram canalizados para ações em ciência e tecnologia, saúde e educação.

Neste momento em que as organizações internacionais estão parando de destinar recursos de assistência ao desenvolvimento para o Brasil, as ESFLs serão as mais afetadas, dado que várias delas sobrevivem de financiamento internacional. Tal fato já está gerando uma maior pressão para que o governo auxilie no financiamento de atividades em andamento. Naturalmente, as ESFLs deverão também bater nas portas de empresas privadas.

Como podemos ver, este comunicado do IPEA vem em boa hora – hora de focar no debate de novas formas de envolver a sociedade civil organizada, mantendo a responsável por suas ações e seus resultados de maneira transparente e acessível para a sociedade.

Aproveito para parabenizar a amiga Natália Salgado Bueno pela contribuição neste importante trabalho e agradecê-la por tê-lo divido comigo.

Publicidade

O estilo genevoise, Weber e a FFLCH

.

A pedido de seis amigas que criaram o site setemalas.com.br, escrevi algumas sugestões turísticas sobre cidade que atualmente resido, Genebra. Para conferir, clique aqui.

Mecanismos inovadores de financiamento: desafios em tempos de crise

.

Mecanismos inovadores de financiamento são uma forma de arrecadar e investir recursos para a promoção de desenvolvimento econômico e combate da pobreza em países de baixa e média renda. O Brasil tem uma participação ativa na discussão internacional sobre tais mecanismos de financiamento, sobretudo por meio da UNITAID e IFFIm.

A pedido da Devex, escrevi um breve artigo sobre desafios nos Mecanismos Inovadores de Financiamento em um momento em que a contribuição financeira destinada a desenvolvimento internacional está caindo abruptamente -como resultado da deterioração das condições fiscais dos países doadores.

Para a leitura, clique aqui.

Imposto sobre Transações Financeiras, G-20, e diplomacia mineira

.

A reunião do G-20 discutirá a introdução do Imposto sobre Transações Financeiras (ITF) em escala global. O grande desafio para o sucesso dessa negociação é a rejeição norte americana, maior mercado financeiro do mundo, à idéia. O que esperar da reunião de Cannes sobre o ITF? Como o Brasil se situa nesta discussão?

Os presidente francês Nicolas Sarkozy e a Chanceler alemã Angela Merkel declaram em setembro de 2011 seu apoio em relação à adoção do ITF no âmbito europeu, dada a rejeição dos países anglo-saxões ao imposto. O presidente da União Européia José Manuel Durão Barroso juntou-se aos dois presidentes dizendo que o ITF poderia ser implementado na zona do Euro, que exclui o Reino Unido, como primeiro passo.

Desde setembro, muitas vozes reforçaram a defesa à adoção do ITF. Bill Gates irá apresentar um relatório sobre formas de financiamento de desenvolvimento econômico na reunião do G-20, no qual ele defende a introdução do ITF e sua parcial aplicação das receitas em desenvolvimento internacional. ONG’s encarregaram-se de fazer um enorme barulho ao redor da idéia do ITF e a necessidade de investir parte desses recursos em agricultura, saúde, educação e meio-ambiente nos países de renda baixa e média.

A discussão sobre ITF não é, contudo, nova. Remete-nos ao início dos anos 70 quando o economista James Tobin propôs a adoção de um imposto que incidiria no valor das transações financeiras de curto prazo, a fim de penalizar os ataques especulativos a moedas nacionais. O Fundo Monetário Internacional lançou um detalho relatório em 2010 sobre o ITF, apontando benefícios claros na adoção do imposto, tais como a correção da falta de suficiente regulação para o setor – sobretudo em derivativos – e da baixa taxação dos mercados financeiros globais.

Embora a atual proposta do ITF tenha ampliado o escopo de incidência do imposto, o único motivo de ressuscitar esta discussão é a crise econômica européia e a necessidade de recursos para financiar políticas anti-cíclicas e a ajuda a países europeus altamente endividados.

Recentemente, o Reino Unido sugeriu que apoiaria a proposta caso os Estados Unidos o fizessem. Aqui reside o grande desafio para o sucesso do ITF. O Presidente Obama está em uma encruzilhada. Se por uma lado declarou apoio ao movimento social que se instaurou na Wall Street (Occupy Wall Street) e enfrenta um déficit público estimado em 1,1 trilhão de dólares para 2012, tem diante de si o instrumento ideal para taxar aqueles que mais se beneficiaram da insuficiente regulação do sistema financeiro e aumentar suas receitas orçamentárias. Porém, terá que levar em consideração não somente o poderoso lobby das instituições financeiras norte-americanas, influente nos dois maiores partidos, como também o financiamento de sua campanha em novembro do ano que vem.

Não há indício de que Obama irá embarcar na onda do ITF. Na Europa, o ITF poderá ser adotado somente em 2014, portanto não há nenhum motivo para expectativas de curto-prazo.

Já o Brasil, curiosamente, tem sido usado oportunisticamente pelos defensores do ITF como exemplo de que este imposto é possível. Há, entretanto, uma grande confusão entre o fator originário e o objetivo do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pelo Ministério da Fazenda. Para efeitos do G-20, se a Presidenta Dilma for questionada sobre a posição do Brasil em relação ao ITF, creio que poderá mostrar sua mineirice: “estamos fazendo o dever-de-casa, não?”.

Somos todos Bolivaristas

.

Compartilhar um sentimento latino-americano não implica descarrilar no chavismo. No fundo, um pouco, somos todos Bolivaristas. Um conceito, ainda que metafórico, nos une mesmo nas diferenças.

Se discorda ou concorda, vale pena conferir o vídeo abaixo:

Desenvolvimento internacional, um investimento diplomático

.

Divido com vocês um artigo meu publicado na edição de hoje do jornal Brasil Econômico.

Desenvolvimento internacional é um investimento diplomático focado em países de renda baixa e média.Não é, portanto, somente solidariedade. Mas qual seria o retorno político dos países que já investiram US$ 2,6 trilhões em doações nos últimos 40 anos? Quais os desafios para os países emergentes nesta área? 

Acadêmicos medem tais retornos por indicadores econômicos. Governos aferem a efetividade desses investimentos sobretudo em termos de apoio em legislação internacional, decisões colegiadas, eleição para altos cargos em organizações internacionais e negócios gerados para empresas nacionais no exterior. É política internacional movida por interesses domésticos. 

Enquanto a ajuda internacional dos países ricos cresceu 35% desde 2004, a dos emergentes, 75%. A China investe em assistência ao desenvolvimento entre US$ 1,9 bilhão e US$ 25 bilhões—dependendo da fonte —, sendo o maior financiador de infraestrutura na África. AÍndia pretende criar uma agência de desenvolvimento e distribuir US$ 11 bilhões nos próximos sete anos. Mesmo com um contingente de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza 18% maior do que a África subsariana, a Índia anunciou este ano uma linha de crédito de US$ 5 bilhões para seus parceiros africanos. O Brasil investiu US$ 1,4 bilhãoemcontribuições para organismos internacionais, cooperação técnica, assistência humanitária e bolsa para estrangeiros entre 2005 e 2009. 

Os dados referentes aos ganhos comerciais dos países emergentes em relação aos de baixa renda são mais precisos. As nações emergentes já têm um fluxo comercial com os países de baixa renda maior do que os Estados Unidos, Japão e Europa juntos.Na última década, por exemplo, o volume de comércio internacional entre África e os Brics dobrou, atingindo 37% do total. 

Embora ainda sejam receptores de doação e tenham uma inegável dívida social internamente, os países emergentes já são doadores. Mesmo assim, tais países não ultrapassam 11% do total de recursos destinados a desenvolvimento internacional, como também não estão livres de desafios institucionais dentro e fora de casa. 

Primeiro, a alta fragmentação intragovernamental das ações ligadas a assistência ao desenvolvimento sugere que seria crucial centralizar tais ações em um único órgão subordinado aos Ministérios das Relações Exteriores, com o objetivo de coordenar melhor tais atividades à diplomacia dos países e melhorar o seu gerenciamento. Segundo, os países emergentes ainda precisam fortalecer a esfera de influência nas organizações multilaterais para se posicionarem como doadores nos conselhos de administração. Terceiro, falta transparência das ações realizadas e dos resultados, de forma que a sociedade ainda não tem a devida prestação de contas dos investimentos públicos, tampouco fica sabendo dos benefícios. 

A atual crise econômica colocou os Estados Unidos e a Europa nus diante do mundo. Não basta compartilhar a percepção de que essa é a vez dos países emergentes, pois eles precisam emergir de fato. Políticas públicas precisam ser implantadas com sucesso para eliminar a pobreza ainda persistente. Os líderes mais cautos sabem que para transformarem um “emergente” em “potência” é também preciso olhar para fora, conquistar aliados e atrair negócios. 

Desenvolvimento internacional é um investimento diplomático que pode ser movido por um sentimento de solidariedade, mas que também precisa gerar retorno para o país doador.

O BNDES que o Brasil não precisa

.

O que não faz o BNDES? O que deveria, financiar o desenvolvimento econômico de longo-prazo do Brasil, incentivar empresas a crescerem, promover o desenvolvimento de tecnologia, melhorar nossa produtividade e competitividade, por meio da correção de “falhas de mercado”.

O que faz o BNDES? O que não deveria, financiar quem não precisa, atrapalhar a política monetária, ser um mamute parafiscal, carecer de transparência e respeito com o dinheiro do contribuinte e ser o grande financiador de projetos que, muitas vezes, trazem consigo uma taxa intrínseca que é escoada nas valas da corrupção.  

Márcio Garcia, mais uma vez, desabafa o inconformismo de muitos em relação à excrescência que é a atuação recente (com exceção durante a crise) do BNDES. Vale a pena ler o artigo inteiro…

O que faz o BNDES?

Márcio Garcia | 08/07/2011 | Valor Econômico

O esdrúxulo envolvimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), na disputa corporativa entre multinacionais francesas, pela rede de supermercados Pão de Açúcar, mostrou que o banco está muito afastado de sua missão original. Afinal, que papel ele cumpre hoje?

O papel do BNDES deveria ser o de complementar o setor financeiro privado, compensando “falhas de mercado”. Trata-se, em tese, de apoiar empresas que não teriam acesso a capital, em condições razoáveis, para viabilizar seus investimentos produtivos. Dado o atual estágio de desenvolvimento do sistema financeiro nacional, bem como o grande interesse de instituições financeiras internacionais em financiar empresas no Brasil, o foco desse banco deveria ser, predominantemente, pequenas e médias empresas. O apoio a setores estratégicos e à inovação tecnológica também se constituiriam em objetivos adicionais. No entanto, para apoiar iniciativas inovadoras e empresas excluídas dos mercados financeiro e de capitais privados, não haveria necessidade das centenas de bilhões aportados pelo Tesouro Nacional (TN) ao BNDES nos últimos anos.

As centenas de bilhões que permitiram ao BNDES mais que dobrar o volume de empréstimos foram destinadas, sobretudo, ao financiamento de grandes empresas, quase todas com amplo acesso a recursos alternativos, quer no mercado nacional, quer no internacional. A razão pela qual recorrem ao banco pouco tem a ver com a impossibilidade de obter créditos no mercado privado, mas sim com os gordos subsídios providos pelas linhas de financiamento do banco estatal. É preciso mais transparência e melhor avaliação de custos e benefícios desses financiamentos.

Ao contrário de sua função original, de complementar os mercados financeiro e de capitais, a ação do BNDES hoje é, principalmente, a de alocar subsídios entre as empresas ungidas por suas escolhas de vencedores. Esse banco possui, indubitavelmente, um corpo técnico excelente. Não obstante, qualquer escolha de vencedores feita entre quatro paredes tende, no longo prazo, a assegurar resultados piores para o crescimento econômico do que a competição entre as empresas em mercado. Se houvesse Microsoft s, Googles ou Facebooks em gestação no Brasil, será que o BNDES saberia como os identificar?

Assim, seus recursos concentram-se nas maiores empresas, que representam os melhores (porque menores) riscos de crédito do mercado. A concentração das maiores e melhores empresas, no portfólio de créditos do banco estatal, inibe o desenvolvimento do sistema privado de crédito. Além disso, a dimensão do BNDES, que aloca cerca de um quarto de todo o crédito da economia brasileira, e cujo tamanho vem aumentando, dificulta cada vez mais a transição para os mecanismos normais de mercado.

Durante a crise, é certo, o BNDES e os demais bancos estatais cumpriram importante papel ao impedir a contração abrupta do crédito ao setor produtivo. Mas eles poderiam voltar a cumprir tal função, em eventual nova crise, mantendo o tamanho que tinham. A enorme expansão registrada nada tem a ver com a crise, exceto como justificativa.

Outro problema causado pelo agigantamento das linhas de crédito do BNDES e dos demais créditos direcionados (habitacional e rural), foi oportunamente levantado, ontem, neste mesmo espaço, por Alexandre Schwartsman (“Sobre jabutis e jabuticabas”, Valor Econômico, 7/7/2011, página A13). Como mais de um terço do crédito do país é concedido a taxas subsidiadas, que não variam com a taxa Selic, a política monetária perde tração. Por isso, para conter pressões inflacionárias, a taxa Selic é mais alta e tem que subir muito mais do que subiria normalmente. Enfim, reclamamos muito, e com razão, de juros tão altos e da precariedade do crédito privado de longo prazo. Contudo, as políticas públicas, sob a justificativa de mitigar tais problemas, acabam por agravá-los e estendê-los no tempo.

A expansão parafiscal associada aos empréstimos do BNDES vem, sim, dificultando o combate à inflação. Os investimentos financiados gerarão capacidade produtiva, quando completos. Mas enquanto não estiverem prontos, geram demanda, impulsionando a inflação para cima. Não quero dizer que, por isso, os investimentos não devam ser financiados. Mas é imprescindível que tais impactos sejam levados em conta. Aparentemente, nem o principal interessado, o Banco Central (BC), se dá conta disso. Em seu recente Relatório de Inflação, no box “Impulso Fiscal”, o BC sequer menciona o impulso parafiscal oriundo dos empréstimos do BNDES.

Não menos importante é o aspecto de transparência das operações. Como se sabe, os empréstimos do TN ao BNDES são realizados a taxas próximas da TJLP, hoje em 6%, menos da metade da Selic (12,25%). Esse subsídio não aparece devidamente explicitado, o que prejudica em muito a transparência. O subsídio é um gasto público, e deveria entrar, explicitamente, no orçamento da União. Na forma atual, o subsídio aparece apenas mesclado à enorme conta de juros (mais de 6% do PIB). A culpa pela elevada conta de juros, por sua vez, costuma ser atribuída exclusivamente ao BC, que fixa a taxa Selic. No entanto, por conta dos subsídios e da acumulação de reservas internacionais, a taxa de juros implícita da dívida pública líquida está em cerca de 17%, bem acima da Selic.

Tais custos fiscais não são apreciados pelo Congresso e pela sociedade civil. A iniciativa de se incluir na LDO os empréstimos do Tesouro ao BNDES e ao Fundo Soberano vai no sentido correto e seria bom que prosperasse.

Além disso, as principais operações do BNDES deveriam ser de conhecimento público. Atualmente, o sigilo bancário impede que tais informações sejam divulgadas. Mas isso precisa ser mudado. Quem recebe o subsídio do banco deveria ser obrigado a abrir mão do sigilo, assim como um cidadão inscrito no programa Bolsa Família tem seu nome incluído em cadastro público. Ambos recebem dinheiro público.

Para que o BNDES continue a cumprir o papel que dele se espera no fomento ao desenvolvimento do país, é necessário que atue com mais transparência e se submeta ao escrutínio público.

Eu e você e meu laptop

.

Nem todos sentem a distância da mesma forma. E ao longo do tempo. Hoje, pelo computador ou telefone celular, temos acesso em tempo real aos acontecimentos do nosso país e do mundo, falamos gratuitamente com entes queridos, e, mesmo longe, parece que estamos perto. Tem limite, essa sensação. E o limite frustra.

Frustra porque não adianta dar “game over” na internet. O escrito, os dados, a comunicação à distância não completam as saudades de um lugar, de um ambiente, de uma pessoa. Falta sentimento. Resta o é-melhor-do-que-nada.

A vida moderna daqueles que têm rodas-no-pé – que tomam a distância e as saudades como partes integrantes do cotidiano – requer um laptop – um blackberry, enfim, um trem – no meio. Entre você e mim, entre nós e o mundo.

Em homenagem à cidade que vejo freqüentemente pelo meu laptop, uma música nova do meu conterrâneo Flausino.

Reforma Política para quem?

.

Várias vezes neste blog já argumentei sobre o meu ceticismo em relação à reforma política que está sendo proposta – sobretudo ao sistema de lista fechada e sistema distrital. Estão vendendo espuma. Dadas as atuais leis, ainda estamos por ver as instituições funcionarem bem.

Andréa Freitas, no Valor de hoje, traz um bom artigo sobre tais pontos.

Emplastro Brás Cubas

Andréa Freitas | Valor Econômico | 17/05/2011

Se há consenso sobre a necessidade de uma reforma política no Brasil, ele advém dos frequentes escândalos de corrupção associados à ausência de políticas públicas eficientes em setores básicos, como educação, saúde e tantos outros que afetam negativamente o dia a dia dos cidadãos. A crença difundida é que uma reforma política reformaria, literalmente, a política, ou a maneira de se fazer política no Brasil.

No entanto, grande parte das medidas em discussão tende a privilegiar o fortalecimento da organização partidária, ou seja, tende a concentrar poder nas instâncias internas dos partidos, aumentando o poder dos mesmos em sua relação com o Estado. Isso se dá em detrimento do fortalecimento da relação entre eleitor e representante, em uma palavra, da representatividade. É precisamente este o caso quando falamos da adoção da lista fechada – lista pré-ordenada pelos partidos nas eleições proporcionais -, do financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais e, mesmo, da adoção do sistema distrital, com a divisão dos Estados em pequenos distritos. Não se muda a política reformando o sistema eleitoral.

O fortalecimento dos partidos políticos é certamente o ponto a que mais se recorre para justificar a necessidade de uma reforma política. Mas o que isto significa? Se pensarmos a partir das propostas em discussão, basicamente significa conceder mais controle às lideranças partidárias sobre seus liderados. Mas o fato é que as lideranças já exercem forte influência sobre suas bancadas no parlamento, pois arbitram grande parte dos recursos capazes de garantir as chances de sucesso eleitoral de seus candidatos. Em poucas palavras, controlam os meios capazes de dar visibilidade aos políticos: definem qual parlamentar ocupará qual cargo na organização do Legislativo; quem tratará de matérias mais visíveis e quem ficará no limbo. Definem ainda aqueles que aparecerão no horário eleitoral gratuito, que candidato aparecerá ao lado do governador, do prefeito ou do presidente, ou do lado das lideranças melhor sucedidas nos palanques ou nos santinhos distribuídos em época de eleição. Reforçar essa lógica reformaria a maneira como se faz política no Brasil?

A reforma política, vendida como panaceia, nos termos em que está sendo discutida, não passa de uma reforma eleitoral. Independentemente das mudanças que venham a ser aprovadas, a maneira de se fazer política no Brasil não vai ser reformada apenas com modificações no sistema eleitoral.

Partidos fortes remetem à ideia de partidos programáticos que defendem políticas claras. A questão é que mudanças no sistema eleitoral não produzirão partidos políticos com raízes na sociedade, com bandeiras claras ou programaticamente consistentes. Assim, a propaganda que se faz da reforma é um engodo. Vende-se uma grande mudança que, na verdade, não muda nada, simplesmente porque as instituições, ou as leis, ou as regras a que estão submetidos os políticos não são mágicas.

Para termos partidos políticos mais representativos dos anseios da sociedade, seriam necessárias medidas que democratizassem as organizações partidárias. Medidas estas que garantissem maior participação dos filiados nas decisões sobre posicionamento político dos partidos e nas convenções partidárias, em especial, aquelas onde se decidirá quais candidatos serão apresentados ao eleitor.

A questão não é defender que tudo continue como está. Mudanças são necessárias, mas elas devem ser no sentido de dar maior transparência ao processo político. Dessa forma, o fim das coligações eleitorais nas eleições proporcionais, embora dificulte a vida dos pequenos partidos, traz avanços significativos na inteligibilidade do método de conversão do voto em cadeiras, torna mais fácil para o eleitor entender que ao votar em um determinado candidato ele está votando em toda a lista do partido, mas apenas daquele partido.

O movimento popular em prol da Lei da Ficha Limpa mostra claramente que o eleitor deseja mudanças no sistema político e almeja, principalmente, diminuir a corrupção e aumentar a transparência. Esses deveriam ser os objetivos a pautar uma reforma política, mas tais fins decerto não serão atingidos apenas mudando o sistema eleitoral, uma vez que não atacam as fontes principais dos problemas identificados.

Uma verdadeira reforma na maneira como se faz política no Brasil deve passar pela redução das estruturas do Estado, pela extinção de institutos e fundações que não produzem os resultados esperados; pela diminuição significativa do número de cargos comissionados, não só nos Executivos, mas também nos Legislativos em todos os níveis (federal, estadual e municipal); pela diminuição da burocratização excessiva, que fomenta desvios e tráfico de influência; pelo aumento da fiscalização sobre a aplicação do dinheiro público, no sentido de aumentar a eficiência de cada real gasto pelo poder público.

Todavia, nada disso se mostrará suficiente se não estiver associado à punição rápida e exemplar daqueles que comprovadamente cometem crimes contra o patrimônio público. O descrédito da classe política e o afastamento da sociedade do meio político são fruto da falta de punição àqueles que desviam verbas, superfaturam obras e se apropriam de maneira privada do poder público. É imprescindível uma reforma do Judiciário, que permita a este poder responder à sociedade aplicando a devida pena aos culpados. É preciso dar uma resposta ao eleitor a cada desvio comprovado do dinheiro público. Só uma reforma deste tipo pode ser nomeada como reforma política. Qualquer outra não é mais que um emplastro Brás Cubas.

Uma droga de política, um filme para se ver

.

Não fumo maconha, não cheiro pó, não fumo crack, não injeto heroína. Não me interesso por drogas, pessoalmente. Não ignoro o fato de que políticos fazem leis impondo sua verdade – ou de sua comunidade – sobre a sociedade e seus indivíduos. Não menosprezo o quão difícil é romper o status quo, o silêncio e injustiças.

Não precisa muito para saber que, às vezes, erramos. A história e as evidências nos mostram. Com humildade intelectual, ouvimos, aprendemos. “Só os burros não mudam de opinião quando percebem que estão errados”, sugere Fernando Henrique Cardoso no documentário “Quebrando o Tabu” que estreará nos cinemas dia 2 de Junho. Dirigido pelo querido amigo Fernando Grostein Andrade, “Quebrando o Tabu” mostra com fatos, evidências e políticos como a política global de combate a droga – liderada pelos Estados Unidos – é um fracasso.

Tive a oportunidade de assistir a uma prévia do filme em uma reunião da Alta Comissão sobre Política de Drogas, patrocinada pela Open Society Foundation, em Genebra, Suíça, em janeiro deste ano. Após o filme, seis ex-Presidentes – incluindo Fernando Henrique – tornaram-se para o jovem diretor e começaram a fazer sugestões do que deveria ser mudado, adicionado. César Gaviria, ex-Presidente colombiano (1990-1994) sugeriu que mudasse sua fala. Julgou-se feio. Assim foi feito. Ernesto Zedillo preferiu calar-se sobre a dramática situação do tráfico no México, país que presidiu entre 1994 e 200 deixou para lecionar na Universidade Yale (Estados Unidos). A caminho do jantar, sua esposa confessou que Zedillo havia adorado o filme – “Ele nunca fala tanto assim, ainda mais deste tema”. Fernando Henrique Cardoso enfatizava o problema de que a política de combate a drogas liderada pelos Estados Unidos só vê o lado da oferta (os países latino-americanos) e não o lado da demanda (Estados Unidos e Europa). Ruth Dreifuss, a primeira presidenta da Suíça e grande entusiasta do filme, prefere dizer que quem usa droga não é criminoso, mas tem um problema de saúde. Sob sua presidência, a Suíça implantou um dos programas de combate ao tráfico de drogas e assistência médica aos viciados em drogas de reconhecido êxito. Na Suíça, uma país conservador, cidadãos têm à sua disposição lugares limpos, com utensílios esterilizados para que possam fazer uso de droga contando com a assistência de profissionais de saúde.

Ouvimos muitas histórias. Raras são as de que o criminalização de usuários de drogas é uma saída eficiente e justa socialmente. Tratar o usuário de droga com cacetete não é razoável, tampouco humano. Raras são as boas notícias vindas pela militarização que os Estados Unidos promoveram na Colômbia, criando tumores de violência na sociedade, a exemplo das milícias. O mundo do tráfico, enquanto existe mercado, não tem fronteiras. É fácil migrar para Venezuela, Peru ou Bolívia – e continuar vendendo para os lucrativos mercados norte-americano e europeu. E, em todos esses países, assim como nas favelas do Rio ou nas ruas do norte do México, inocentes são mortos por transitarem livremente pelas ruas.

Não me interesso por drogas, mas me interesso por vidas. Não sei o que é crack, mas tenho como norte a justiça. Não sou político, mas como cidadão, creio que profissionais da vida pública precisam se guiar pela realidade e não por sermões do mundo que acreditam ser ideal. A realidade quebra tabus, rompe silêncio – mais cedo ou mais tarde.

O filme “Quebrando o Tabu” vem em uma hora oportuna. A política de drogas precisa ser rediscutida. Por isso, não só recomendo que vá aos cinemas, mas também pense como o falso moralismo não salva vidas, tampouco educa homens e mulheres.