Para vencer Aids, tuberculose e malária

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Artigo publicado hoje no Valor Econômico pelo Diretor Executivo do Fundo Global. O Brasil pode fazer sua parte.

Com a criação do G-20, o mundo reconheceu que, para resolver os grandes desafios globais, uma nova forma de solidariedade mundial era necessária.

Há dez anos o Brasil inspirou o mundo com uma estratégia pioneira de combate à Aids. O país mostrou o que é possível realizar quando a saúde é considerada um direito humano fundamental, o compromisso político é forte e medidas corajosas são adotadas para expandir o tratamento e a prevenção da Aids. Desde então, o exemplo brasileiro espalhou-se pelo mundo.

Entre 2002 e 2009, mais de 5 milhões de pessoas ganharam acesso ao tratamento para Aids nos países em desenvolvimento. A mortalidade por Aids vem caindo na maioria dos países com alto ônus da doença em quase todas as partes do mundo.

Também conseguimos grandes avanços na luta contra a malária e a tuberculose. Pelo menos dez países africanos onde a malária é endêmica registraram queda no número de novos casos da doença e uma redução entre 50% e 80% da mortalidade por malária. A tuberculose tem sido diagnosticada e tratada com muito mais eficácia, também resultando em queda da mortalidade em muitos países.

De todas as áreas de desenvolvimento contempladas pelos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), é na saúde que a comunidade internacional pode realmente se orgulhar de suas realizações, em grande parte pelos resultados alcançados no combate a essas três doenças.

Eu tenho muito orgulho do papel que o Fundo Global de Luta Contra a Aids, Tuberculose e Malária desempenha. Programas financiados pelo fundo dão acesso a tratamento da Aids para quase 3 milhões de pessoas – incluindo 3/4 das pessoas em tratamento na Ásia, mais da metade na África e quase um terço na América Latina e no Caribe fora do Brasil. O Fundo Global também é um dos grandes financiadores multilaterais de prevenção do HIV e contribui com cerca de dois terços de todo o financiamento internacional para malária e tuberculose.

No total, segundo nossas estimativas, os programas apoiados pelo Fundo Global salvaram 6 milhões de vidas somente nos últimos oito anos. A cada dia, salva mais 4 mil. O Brasil é um dos 140 países que recebem apoio do Fundo Global para o combate à malária na Amazônia e controle da tuberculose.

O papel do Fundo Global vai muito além da contribuição para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 6 (Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças). Nossos investimentos para deter o HIV, a tuberculose e a malária também contribuem diretamente para os ODMs 4 e 5 ao beneficiar a saúde materna e infantil.

Hoje nos encontramos em um momento decisivo na luta contra a Aids, tuberculose e malária e, de maneira mais abrangente, em nossos esforços para alcançar os ODMs relacionados à saúde nos próximos cinco anos. Em setembro, os países vão se reunir na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York para avaliar os resultados obtidos até agora. Em outubro, os países doadores de recursos se reúnem novamente na ONU para decidir o montante que destinarão para a saúde por meio do Fundo Global nos próximos três anos.

Com um nível adequado de recursos financeiros, e a expansão contínua dos programas no ritmo atual, resultados extraordinários estarão ao nosso alcance. Até 2015, podemos prevenir milhões de novas infecções pelo HIV; reduzir dramaticamente o número de mortes por Aids; e virtualmente eliminar a transmissão do HIV da mãe para o bebê. Quanto à tuberculose, também podemos conseguir declínios significativos na prevalência e mortalidade. É possível, ainda, eliminar a malária como um problema de saúde pública nos próximos anos na maioria dos países onde a doença é endêmica. Essas são metas realistas que, se alcançadas, representarão um progresso extraordinário para a humanidade. Mas o resultado da reunião dos líderes em outubro é crucial para garantir que o Fundo Global possa continuar salvando milhões de vidas ao redor do mundo.

O Fundo Global trabalha continuamente para diversificar sua base de financiamento. Isso é particularmente importante neste momento em que a recessão global coloca imensa pressão nos orçamentos públicos dos grandes países doadores. É por isso que a administração do fundo se reuniu com autoridades em Brasília, esta semana, para discutir o papel que as economias emergentes como o Brasil podem desempenhar na saúde mundial e no apoio ao Fundo Global.

O crescente poder político e econômico do Brasil é amplamente elogiado. O que é menos conhecido é o papel do Brasil na ajuda aos países pobres. Por meio de um vasto leque de instituições e atividades, o país está rapidamente se tornando um dos maiores doadores do mundo.

Minha esperança é de que, à medida que assume um papel mais importante no cenário internacional, o Brasil em breve se considere um parceiro natural do Fundo Global, juntando-se a outras economias emergentes como doador. O Fundo e o Brasil compartilham um forte compromisso com a melhoria da igualdade social e o alívio da pobreza.

Com a criação do G-20, o mundo reconheceu que, para resolver os grandes desafios globais, uma nova forma de solidariedade mundial era necessária. Como observou o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, o sucesso da capitalização do Fundo Global este ano será um grande teste dessa nova solidariedade.

Estamos prestes a conseguir avanços imensos na saúde mundial, mas precisamos que cada país faça sua parte. Agora é a hora ideal para o Brasil aceitar as responsabilidades de liderança que acompanham seu status global e mostrar sua solidariedade na luta contra essas três epidemias mundiais.

Michel Kazatchkine é diretor executivo do Fundo Global de Luta Contra a Aids, Tuberculose e Malária

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