Desenvolvimento internacional, um investimento diplomático

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Divido com vocês um artigo meu publicado na edição de hoje do jornal Brasil Econômico.

Desenvolvimento internacional é um investimento diplomático focado em países de renda baixa e média.Não é, portanto, somente solidariedade. Mas qual seria o retorno político dos países que já investiram US$ 2,6 trilhões em doações nos últimos 40 anos? Quais os desafios para os países emergentes nesta área? 

Acadêmicos medem tais retornos por indicadores econômicos. Governos aferem a efetividade desses investimentos sobretudo em termos de apoio em legislação internacional, decisões colegiadas, eleição para altos cargos em organizações internacionais e negócios gerados para empresas nacionais no exterior. É política internacional movida por interesses domésticos. 

Enquanto a ajuda internacional dos países ricos cresceu 35% desde 2004, a dos emergentes, 75%. A China investe em assistência ao desenvolvimento entre US$ 1,9 bilhão e US$ 25 bilhões—dependendo da fonte —, sendo o maior financiador de infraestrutura na África. AÍndia pretende criar uma agência de desenvolvimento e distribuir US$ 11 bilhões nos próximos sete anos. Mesmo com um contingente de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza 18% maior do que a África subsariana, a Índia anunciou este ano uma linha de crédito de US$ 5 bilhões para seus parceiros africanos. O Brasil investiu US$ 1,4 bilhãoemcontribuições para organismos internacionais, cooperação técnica, assistência humanitária e bolsa para estrangeiros entre 2005 e 2009. 

Os dados referentes aos ganhos comerciais dos países emergentes em relação aos de baixa renda são mais precisos. As nações emergentes já têm um fluxo comercial com os países de baixa renda maior do que os Estados Unidos, Japão e Europa juntos.Na última década, por exemplo, o volume de comércio internacional entre África e os Brics dobrou, atingindo 37% do total. 

Embora ainda sejam receptores de doação e tenham uma inegável dívida social internamente, os países emergentes já são doadores. Mesmo assim, tais países não ultrapassam 11% do total de recursos destinados a desenvolvimento internacional, como também não estão livres de desafios institucionais dentro e fora de casa. 

Primeiro, a alta fragmentação intragovernamental das ações ligadas a assistência ao desenvolvimento sugere que seria crucial centralizar tais ações em um único órgão subordinado aos Ministérios das Relações Exteriores, com o objetivo de coordenar melhor tais atividades à diplomacia dos países e melhorar o seu gerenciamento. Segundo, os países emergentes ainda precisam fortalecer a esfera de influência nas organizações multilaterais para se posicionarem como doadores nos conselhos de administração. Terceiro, falta transparência das ações realizadas e dos resultados, de forma que a sociedade ainda não tem a devida prestação de contas dos investimentos públicos, tampouco fica sabendo dos benefícios. 

A atual crise econômica colocou os Estados Unidos e a Europa nus diante do mundo. Não basta compartilhar a percepção de que essa é a vez dos países emergentes, pois eles precisam emergir de fato. Políticas públicas precisam ser implantadas com sucesso para eliminar a pobreza ainda persistente. Os líderes mais cautos sabem que para transformarem um “emergente” em “potência” é também preciso olhar para fora, conquistar aliados e atrair negócios. 

Desenvolvimento internacional é um investimento diplomático que pode ser movido por um sentimento de solidariedade, mas que também precisa gerar retorno para o país doador.

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