Elias, tolerância e imaginação

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Há certas coisas que acontecem nas melhores famílias e nos piores momentos, como o carro parar subitamente no meio na Marginal Tietê em horário de pico. Para melhorar o meu humor, estava a caminho do aeroporto cheio de malas no carro, logo após pegar meu visto-de-última-hora às 4 da tarde no Consulado estadunidense.

Após 3 minutos, estacionou um carro prata em nossa frente. Dele saiu um rapaz com cerca de 45 anos, moreno, calvo e baixo, oferecendo ajuda. Perguntou o que ocorrera. Bateria, disse sem saber – pois de carro é o que entendo, nada. Meu irmão estava ao telefone com a seguradora. Ele ofereceu todo o tipo de ajuda possível para retirar o carro do extremo lado esquerdo da pista. Desanimei-o. Onde mora? – interroguei. Jardim Indaiá. Estou indo ao aeroporto. O rapaz ofereceu-se imediatamente para me deixar em meu destino final. Tal gentileza me assustara. Quanto fica? – perguntei ressabiado. Ele riu como se houvesse o ofendido. Logo aceitei. Coloquei minhas quatro malas em
seu gol que soava ter um motor bastante usado e janelas que não abriam.

Marginalparada

No curto trajeto até o aeroporto de Guarulhos, o rapaz me contou que nasceu em Montes Claros (MG) e veio para São Paulo aos 2 anos, onde trabalha atualmente como distribuidor de produtos eletrônicos na Santa Ifigênia. Disse que eu também era mineiro, mas pouco se importou. Queria saber para onde ia. Estados Unidos, Washington, respondi. Você vai a Igreja lá? – questionou com os olhos de lado. Respondi que não, já que não tenho o costume. O rapaz insistiu, “pois é, você deveria ir, pois se está agora neste carro é por causa de Deus. Você precisa acertar suas contas com ele”. Não dei prosseguimento ao assunto, mas perguntei que religião aquele sujeito prestativo era devoto. Igreja Universal do Reino de Deus. Com a pureza de um crente, independente da religião, acreditava que era seu dever ajudar ao próximo. Se Deus me ajudou, não sei, tampouco creio. Prefiro acreditar que minha convicção em
ser tolerante perante escolhas de cunho religioso me ajudou. Pois no final, são os homens que se ajudam.

Aquele rapaz, que passava por volta de 3 horas diárias no trânsito da capital paulista, queria mesmo saber como era uma viagem internacional de avião. Quantas horas? Quanto custava? Tinha comida? Era paga? Creio que dei mais informações a ele que um dia procurou saber por si mesmo. Era uma realidade não tangível para aquele rapaz. Sorrindo, contou que andou de avião uma vez em sua vida. Um dia viu no jornal uma promoção da BRA para o Rio
de Janeiro. “68 reais, lembro até o valor”, disse. Nada me contou sobre o Rio, mas ele realmente ficou fascinado em voar sobre as nuvens entre Guarulhos e Galeão.

“Você sabe, eu já sonhei umas 4 vezes que estava nos Estados Unidos. Logo após o 11 de setembro, eu imaginava que estava lá em uma missão. Vem tanto americano para cá em missão. Pois é, eu imaginava que ia em missão. Em minha cabeça as imagens são tão claras que até parece realidade”. Concordei com ele sobre o número de missionários americanos no Brasil – quando fiz estágio voluntário no Consulado de Chicago, recebíamos missionários diariamente
para tirar visto.

Meu destino havia chegado, Terminal 1. Elias, este era seu nome, estava com sorriso nos olhos. Era a satisfação da ajuda, de ser importante no desespero – no caso, meu. Anotei seu endereço e telefone para mandar uma lembrança de agradecimento. Ao sair, gritou: “me ligue quando chegar para dizer que foi tudo bem”.

Salve o Elias, salve a tolerância, salve a imaginação.

 

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4 comentários sobre “Elias, tolerância e imaginação

  1. Oi Humberto td bem?
    Entrei aqui no seu Bloq p desejar muita sorte p vc !! Adorei t conhecer e volte logo p fazer um happy hour bjao fica com DEUS Célia pop star rsrsrsrsrsrs

  2. Pois é, HL. Aparte a pieguice, são essas histórias que fazem a vida valer, de fato, a pena.

    Já disse que gosto muito do seu estilo de escrita? Faça-o mais. :o)

    Um beijo da Rêitchel

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