Dilma, o que aprender com Obama?

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Dilma Rousseff e Barack Obama encontraram-se semana passada em Seul, Coréia do Sul, na reunião de Cúpula do G-20. Dilma não foi recebida como a “mulher mais popular do planeta”, tampouco parabenizada pelo nível do debate da eleição presidencial de que saiu vitoriosa. Obama não foi saudado como o porta-voz da “esperança”, sobretudo após a derrota do Partido Democrata no Congresso e a recente ofensiva americana na ainda pendente “guerra cambial”.

Desde encontro, o que a primeira presidente mulher do Brasil poderia aprender com a experiência acumulada nos dois anos de governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos? Obama provavelmente responderia: aproveitar o momento para fazer reformas em prol do desenvolvimento de longo prazo e melhoria da competitividade do Brasil no cenário internacional.

Mudanças nas políticas públicas em vigor são mais fáceis de serem implementadas em países em que o Executivo conta com maioria no Legislativo, como é o caso do Brasil e dos primeiros dois anos de Obama. Em momentos de bonança, esta tarefa torna-se ainda mais fácil e, sobretudo, menos arriscada politicamente. O custo político do(a) presidente tende a ser menor, na hipótese das reformas não gerarem resultados positivos imediatos pelo simples fato de que os cidadãos sentem que as coisas “vão bem”. Há comida no prato, há emprego, há sensação de segurança. Esta é a maior diferença entre a economia brasileira e a norte-americana e, consequentemente, entre o atual momento político de Dilma e Obama, que já perdeu 17 pontos percentuais de sua taxa de aprovação desde o começo do mandato.

Obama promoveu em dois anos mudanças legislativas expressivas, como a universalização no sistema de saúde, mudanças no programa de crédito estudantil e reformas no sistema financeiro. Foi eleito em meio à mais severa crise econômica pós-1929. Seus discursos inflamados elevaram a expectativa da sociedade. Porém, suas reformas não geraram resultados de curto prazo, seja porque é razoável que demorem um pouco mais, ou porque não foram concebidas e implementadas efetivamente. Ainda assim, não é possível dizer que Obama não tem feito relativamente um bom governo, como também não há como concordar que está entregando o que prometeu da forma como todos esperavam.

De Dilma, não se espera nada além do continuísmo. Precisa provar à sociedade a que veio e como se moverá entre os tentáculos do partido de Lula e do PMDB, o que já é bastante desafiador. Herda uma economia em crescimento ao redor de 7% em 2010, como também contas a pagar por gastos excessivos incorridos pelo governo Lula e um cenário externo desfavorável. Com maioria no Congresso e no Senado nos próximos quatro anos, razoável apoio de governadores, tem diante de si uma excelente oportunidade para promover reformas que podem impactar o desenvolvimento de longo prazo do país sem frustrar expectativas dos cidadãos no curto prazo. E é por isso que a presidente será julgada, pois carisma é uma virtude de que carece.

O exemplo de Obama mostra a importância de não separar políticas públicas de política. Em recente entrevista ao jornal The New York Times, o presidente norte-americano admitiu que ele e sua equipe gastaram “mais tempo tentando que as políticas públicas dessem certo do que a política”. Hoje, a política ameaça suas reformas. Livre desta sina, pois no Brasil as eleições majoritárias e proporcionais ocorrem simultaneamente, Dilma tem desafios diferentes na política e muito trabalho a ser feito na esfera das políticas públicas, até porque vai assumir um governo sem um plano de governo. Para ser preciso, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral 8 páginas de um roteiro de boas intenções na última semana antes do segundo turno.

No calor do primeiro pronunciamento, Dilma assumiu compromisso de melhorar a qualidade dos gastos públicos, simplificar e atenuar a tributação, de reformar o sistema político e prover mais oportunidades aos brasileiros. Espera-se, no entanto, que enfrente de fato reformas abandonadas por Fernando Henrique e desconsideradas por Lula. Só assim escapará da pecha do continuísmo obediente e plantará sua semente “com mão amorosa e olhar para o futuro”.

Como uma tecnocrata, Dilma bem sabe que para fazer reformas é preciso método, convencimento e, de sua parte, uma indubitável liderança. Senso de urgência, prioridade e clareza nos benefícios gerados pelas reformas são variáveis importantes. Em temas mais delicados, como o da previdência social, a experiência mostra que é preciso pensar em compensações para aqueles que têm mais a perder com a reforma. Por fim, comunicação e transparência durante o processo reformista são cruciais para seu êxito, pois a população precisa adotar as reformas como conquistas coletivas, a exemplo do Plano Real, da Lei de Responsabilidade Fiscal e do Bolsa Família.

O Brasil enfrenta um momento melhor do que o país de Obama, de quem Dilma pode aproveitar boas lições do que fazer e do que evitar. Achar que tudo está ótimo não é solução, mas uma armadilha que pode custar caro. Dilma iniciará seu mandato com um ambiente propício para fazer um governo ainda melhor do que o de Lula. Mas precisará olhar para o futuro, definir e negociar politicamente sua estratégia de longo prazo e escolher suas reformas. Só assim irá “honrar as mulheres brasileiras” e dará sua contribuição para fazer, como se espera, o futuro chegar mais rápido ao “país do futuro”.

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