Uma droga de política, um filme para se ver

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Não fumo maconha, não cheiro pó, não fumo crack, não injeto heroína. Não me interesso por drogas, pessoalmente. Não ignoro o fato de que políticos fazem leis impondo sua verdade – ou de sua comunidade – sobre a sociedade e seus indivíduos. Não menosprezo o quão difícil é romper o status quo, o silêncio e injustiças.

Não precisa muito para saber que, às vezes, erramos. A história e as evidências nos mostram. Com humildade intelectual, ouvimos, aprendemos. “Só os burros não mudam de opinião quando percebem que estão errados”, sugere Fernando Henrique Cardoso no documentário “Quebrando o Tabu” que estreará nos cinemas dia 2 de Junho. Dirigido pelo querido amigo Fernando Grostein Andrade, “Quebrando o Tabu” mostra com fatos, evidências e políticos como a política global de combate a droga – liderada pelos Estados Unidos – é um fracasso.

Tive a oportunidade de assistir a uma prévia do filme em uma reunião da Alta Comissão sobre Política de Drogas, patrocinada pela Open Society Foundation, em Genebra, Suíça, em janeiro deste ano. Após o filme, seis ex-Presidentes – incluindo Fernando Henrique – tornaram-se para o jovem diretor e começaram a fazer sugestões do que deveria ser mudado, adicionado. César Gaviria, ex-Presidente colombiano (1990-1994) sugeriu que mudasse sua fala. Julgou-se feio. Assim foi feito. Ernesto Zedillo preferiu calar-se sobre a dramática situação do tráfico no México, país que presidiu entre 1994 e 200 deixou para lecionar na Universidade Yale (Estados Unidos). A caminho do jantar, sua esposa confessou que Zedillo havia adorado o filme – “Ele nunca fala tanto assim, ainda mais deste tema”. Fernando Henrique Cardoso enfatizava o problema de que a política de combate a drogas liderada pelos Estados Unidos só vê o lado da oferta (os países latino-americanos) e não o lado da demanda (Estados Unidos e Europa). Ruth Dreifuss, a primeira presidenta da Suíça e grande entusiasta do filme, prefere dizer que quem usa droga não é criminoso, mas tem um problema de saúde. Sob sua presidência, a Suíça implantou um dos programas de combate ao tráfico de drogas e assistência médica aos viciados em drogas de reconhecido êxito. Na Suíça, uma país conservador, cidadãos têm à sua disposição lugares limpos, com utensílios esterilizados para que possam fazer uso de droga contando com a assistência de profissionais de saúde.

Ouvimos muitas histórias. Raras são as de que o criminalização de usuários de drogas é uma saída eficiente e justa socialmente. Tratar o usuário de droga com cacetete não é razoável, tampouco humano. Raras são as boas notícias vindas pela militarização que os Estados Unidos promoveram na Colômbia, criando tumores de violência na sociedade, a exemplo das milícias. O mundo do tráfico, enquanto existe mercado, não tem fronteiras. É fácil migrar para Venezuela, Peru ou Bolívia – e continuar vendendo para os lucrativos mercados norte-americano e europeu. E, em todos esses países, assim como nas favelas do Rio ou nas ruas do norte do México, inocentes são mortos por transitarem livremente pelas ruas.

Não me interesso por drogas, mas me interesso por vidas. Não sei o que é crack, mas tenho como norte a justiça. Não sou político, mas como cidadão, creio que profissionais da vida pública precisam se guiar pela realidade e não por sermões do mundo que acreditam ser ideal. A realidade quebra tabus, rompe silêncio – mais cedo ou mais tarde.

O filme “Quebrando o Tabu” vem em uma hora oportuna. A política de drogas precisa ser rediscutida. Por isso, não só recomendo que vá aos cinemas, mas também pense como o falso moralismo não salva vidas, tampouco educa homens e mulheres.

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