Qual é o passo depois da rua?

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Acordamos com a sensação de dever cumprido e com a dúvida do nosso próximo passo. Sentidos pelos olhos-roxos, mas orgulhos do país e nosso povo. Como fazer com que a voz das ruas, as demandas coletivas e apartidárias por um Brasil melhor, se traduza em uma nova realidade política?

Primeiro, pedimos mudanças claras nos valores e práticas na política. É um passo dado. Honestidade de governantes e gestores públicos, a mediação pacífica na resolução de conflitos (pelo menos, pela maioria dos manifestantes), prioridade da ação pública no que realmente importa para nosso desenvolvimento (saúde, educação, proteção aos direitos, infraestrutura), transparência e qualidade do investimento público. Basicamente, é um grito de que queremos fazer as coisas certas do modo certo.

O segundo passo será mais complexo: como trazer o movimento das ruas para os partidos políticos. Vivemos em uma democracia representativa e, invariavelmente, toda mudança política precisa passar pelas urnas, por intermédio dos partidos. Os partidos políticos no Brasil são sistemas fechados pouco inclusivos e dominados por seus velhos caciques. Não por acaso, têm sido incapazes de assimilar e canalizar as demandas populares, como também acomodar efetivamente a juventude em suas estruturas. Caso tivessem, será que haveria manifestações nesta proporção? No mínimo, a probabilidade diminuiria. As perguntas que ficam no ar são: os partidos irão responder ao clamor das ruas e fomentar a participação inclusiva em sua estrutura de governança? Fomentarão a inovação de seus quadros de maneira democrática? Ou, o movimento ainda disperso e heterogêneo tentará formar um novo partido?

Brasil em progresso

Tudo ainda está no ar. Os políticos e os partidos estão calados. Algumas lideranças pronunciaram-se ontem, sem dizer muito. Outros, menos atentos, diferiram palavras de ordem no final da semana passada. Mas não há partido algum que transmitiu uma mensagem coesa. É um bom sinal: o povo tirou a classe política da inércia e sinalizou que quer algo diferente. Quem iniciará o movimento de aproximação entre a rua e os partidos? Se não houver, a manifestação acabará como uma quarta-feira de cinzas ou em 31 de março?

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17 comentários sobre “Qual é o passo depois da rua?

  1. Humberto, excelente texto! Mas deixo abaixo algumas ressalvas a esse movimento:
    1. Acho lamentável a forma como a polícia tem sido retratada nessa história. Toleram-se abusos dos manifestantes (são poucos vândalos que não representam o movimento), mas as atitudes de poucos policiais são generalizadas para toda a corporação. A PM perdeu o poder de controlar a ordem, e o que se viu ontem foi um bando tentando arrombar os portões do Palacio dos Bandeirantes.
    2. ok, não é sobre os 20 centavos. Muitos dos que estão lá protestam contra a ineficiência do setor público. Mas o estopim foi o reajuste do transporte público. Será que essas pessoas se preocupam com o preço dos produtos cobrados pela empresa onde trabalham (montadoras, empresas de bens de consumo). Não é curioso muitas delas brigarem para aumentar a margem de lucro de seus produtos para ganhar um belo bônus no fim do ano? Isso sem falar dos que sonegam, dos que dão propina, dos que votam no Tiririca …
    3. Triste ver que nossos governantes estão perdidos. As opiniões mudam para evitar confrontos com a opinião pública.
    4. Por fim, acho ruim um movimento desse porte sem propostas concretas. Protestar por protestar. Afinal, eles vão parar quando? Eles não sabem muito bem o que querem, como querem, de quem cobrar! O movimento vai acabar sem conseguir algo de concreto. E em 2014 nada mudará. Infelizmente

  2. Jairo,

    às vezes precisamos somente de um motivo para, mesmo que pequeno, para nos rebelar – pois motivos têm de sobra. Foi assim agora, como em várias movimentos sociais no mundo ao longo da história. Prefiro ver tal movimento de maneira ampla do que simplesmente sua origem inicial – que já se dissipou. Incrível é que os políticos estão tratando o problema ainda como se fosse os 20 centavos.

    1) O papel da política (da tropa de choque) quinta-feira foi desastroso. Não há muita desculpa. Foi particularmente desastroso para o Alckmin e para o PSDB. Ainda bem que ontem foi pacífico.

    2) Acho que o problema é mais a alocação regressiva de recursos públicos do que os 20 centavos. Por que subsidiar tanto o Eike Batista e as “empresas campeães” e não subsidiar transporte público? É dificil de entender.

    3) Concordo plenamente.

    4) Esse é o desafio de um movimento sem liderança, em rede, sem organização. Terá que se institucionalizar em partidos políticos ou se dissipará na fumaça. Entretanto, são diminui seu potencial transformador. As pessoas estão conectas em rede, estão mobilizadas. Os governos terão que ser mais responsivos. O fato é, já mudou de alguma forma. Quando sentiremos a mudança? Vamos ver.

    Valeu e abraços, H

  3. Humberto, só mais 2 opções:
    1. O tal MPL quer financiar o Tarifa Zero às custas do aumento do IPTU, vc leu? Ta tudo errado!!! Ao invés de cobrar gastos públicos em ordem, eficiencia, fim da corrupção, querem transferir recursos para subsidiar transporte coletivo. E note que boa parte do assalariado de baixa renda tem transporte pago pelo empregador. Pra mim o mote de tudo isso, a pseudo-liderança deles não é correto.
    2. Concordo que houve abusos da polícia, mas eu particularmente, talvez por motivos fortemente pessoais, sou contra passeatas que bloqueiam ruas e avenidas. Independente de certo e errado, existe uma autoridade nesse pais e acho muito triste ver que ela é desrespeitada. Por mais corruptos e ineficientes que sejam, nada justifica forçar portões do Palacio, tomar Congresso, cercar policiais no RJ. A violencia em SP atingiu niveis que eu nunca vi antes, e só se combate isso com uma policia forte, que imponha autoridade. Se os cidadaos de bem não a respeitam, fica dificil…

    Abs

    1. Jairo,

      A proposta do MPL é uma maluquice. Não creio que as milhares de pessoas que protestaram ontem apoiam essa ideia maluca. Não faz sentido nenhum.

      Sobre o ponto 2, é difícil saber qual seria a outra alternativa. Mas, claro, seria melhor que não precisasse ir tão longe.

      Abs, H

    2. Humberto, seu texto é muito bom, excelente!
      Permita-me comentar como segue (também as respostas do Jairo):
      A violência certamente não é uma presença desejada, mas tal qual o bloqueio de vias públicas eu encaro isso como efeito colateral, do tipo “não dá para fazer omelete sem quebrar o ovo”… Claro que a polícia tem o dever de coibir depredações e demais ameaças ou atos abusivos, mas de forma equilibrada.
      Não acho que não há nada de errado com uma empresa que gera lucro, desde que ofereça condições de trabalho condizentes. Aliás, no fundo, é exatamente por isso que nós estamos protestando: somos contribuintes tributados com alíquotas de 1º mundo e “recebedores” de retorno com nível para lá de 3º mundo (Educação, o mais importante a longo prazo, Saúde, Segurança e Infra-Estrutura precárias, só para citar alguns pontos).
      O ponto crucial para que essas manifestações possam gerar resultados positivos para as gerações futuras é realmente uma mudança radical na forma de fazer política nesse país, e para isso é absolutamente primordial a não aprovação dessa aberração que é a PEC 37! Imagino que Brasília irá ser invadida em 26/06 próximo, data prevista para a votação dessa proposta insana e perigosíssima para a democracia.
      Por fim, como bem observado pelo Jairo, é realmente uma piada de mal gosto essa ideia de subsidiar o transporte público mediante aumento do IPTU. Dinheiro não falta, o que é preciso é ser eficiente, fechar as torneiras da corrupção e do desperdício, etc.
      Abraços, e que o povo consiga tirar dos governos (nos três poderes) os caciques, marajás, coronéis e apropriadores indevidos de dinheiro e benefícios públicos!
      HM – São Paulo/SP

      1. Horst,

        Estou de acordo com você. PEC 37 é uma super etapa importante. Mas precisa ser um processo em que a sociedade monitore melhor a efetiva taxação e alocação de recursos progressiva, bem como a transparência do governo. Gostaria também de poder estar em Brasília dia 26/6!

        Abraços,

        H

      2. Caro Horst, óbvio que não sou contra o lucro das empresas, muito pelo contrário. Mas li de muita gente que foi na manifestação contra o alto custo de vida, e ai a mesma pessoa no seu ambiente de trabalho defende uma posição contrária, afinal tanto Governo quanto empresas tem sua parcela de responsabilidade neste ponto. Ai começa pedido de impeachment da Dilma, crítica à TV Globo, o pessoal querendo mela a Copa, é tudo muito triste.

  4. E porque não fazer a historia acontecer já….e como a atual classe politica ainda não se manifestou, que tal a fundação de um partido novo, com estas NOVAS pessoas que estão ai nas ruas, cansadas da mesmice, e com gas para a nova jornada. E para ser lembrado sempre, proponho a criação do “Partido dos 20 centavos”.

  5. Acredito que serei minoritário aqui, mas como o debate está qualificado, minha opinião é a seguinte:

    1- Gostemos ou não (eu virei fã), o MPL se tornou quase que do dia para a noite o movimento social mais importante do país. Os méritos são muitos. Entre eles a) eles iniciaram as maiores manifestações no Brasil em 20 anos, b) souberam escolher como foco da sua atuação uma área sensível particularmente aos mais pobres e que expões claramente os problemas de exclusão econômica e geográfica em grandes cidades, e c) eles se mantiveram abertos desde o início a uma construção coletiva e horizontal, com participação de independentes, outros movimentos sociais, punks e partidos políticos, mas sempre tomando cuidado para que nenhum desses movimentos se tornasse uma falsa liderança (como ocorre no movimento estudantil há décadas, por exemplo).

    2- O acontecimento já é muito significativo para o Brasil. Acredito que terá uma imensa influência política no curto e médio prazo. Além disso, a sabedoria de focar um uma medida objetiva como a tarifa de ônibus pode sim gerar uma imensa vitória política para o movimento, caso o aumento seja revisto. Isso, na minha opinião, seria um resultado maior do que o obtido pelo Occupy Wall Street em 2011. Porém, os rumos estão totalmente em aberto. Os conservadores do tipo “cansei” sairam as ruas também e eventualmente eles poderão capitalizar tudo isso (o que seria um desastre na minha avaliação).

    3- A violência contra um Estado que agride e se isola do povo é legítima. Tomar o Congresso, ocupar Assembleias, invadir palácios, tudo isso é legítimo se a democracia representativa não nos representa. E aqui está minha principal discordância com o artigo do Laudares: não acho que a solução esteja na incorporação dessas demandas pelas instituições representativas. Para mim, está na transformação e criação de instituições participativas e de democracia direta.

    1. Caríssimo Marcelo,

      Sem dúvida o MPL fez um bom trabalho de mobilização. Os resultados falam por si, como bem explicou. Minha discordância é em relação a proposta de transporte público gratuito. não para em pé e somente perpetua o nosso estado paternalista. As pessoas precisam saber que os bens públicos custam dinheiro. No entanto, acho que é temos melhor retorno subsidiando transporte público do que os Eikes Batistas da vida. Outro ponto positivo é que manifestações ressaltaram outras mazelas da administração pública – trazendo mais gente para as ruas e abrangendo a agenda de protesto.

      Estou plenamente de acordo que terá impacto de curto e médio prazo. Como vamos saber. Até porque tarifa de ônibus não é assunto para vários governos estaduais (somente no caso de regiões metropolitanas e metrô) e federal. Será uma miopia se os governos responderem somente a isso.

      Como sabe, vivo na Suíça, uma país de democracia bastante direta. Em alguns cantões, 100% direta. Honestamente, achar que a democracia direta seria possível no Brasil é um boa utopia (no bom sentido). Mas por que não daqui uns 500 anos quando estivermos muito mais maduros e características como confiança, controle social e responsabilidade pelo coletivo estejam mais imiscuída em nossa cultura política? Até lá, acho mais realista apostar em nossa democracia representativa. Mas é claro, o nível de participação de nossa democracia representativa tem que melhorar (e muito).

      Grande abraço, H

    1. Eu assisti à entrevista e não foi bem isso que ele falou. Quem propôs CIDE municipal foi o secretário de Transportes.

      Eu, no entanto, acho razoável que aqueles que andam de veículo particular financiem uma parte maior do transporte coletivo.

      Para minha surpresa, gostei da proposta do Rai (ex-jogador): cancelar o aumento e convocar um plebiscito sobre o passe livre.

  6. Olha lá, estão tentando invadir a prefeitura! É um ABSURDO. NADA JUSTIFICA…Vão dizer que são poucos, que não representam o movimento? Que a situação atual do país justifica esse destempero?

  7. Fio,

    Acho que agora o próximo passo seria definir o foco e continuar. Assim como conseguiram diminuir as tarifas de ônibus, poderemos tirar Feliciano, fazer com que corrupção seja crime hediondo, definir posição sobre a PEC 37, enfim, definir a causa e continuar.

    PS: continue escrevendo, suas idéias expressam o que boa parte de nos queremos e apoiamos!

    Abraco

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